domingo, 5 de fevereiro de 2012

As mentiras de Locke Lamora

Título: As mentiras de Locke Lamora
Uma Aventura dos Cavalheiros Bastardos
Autor: Scott Lynch
Tradução: Ana Mendes Lopes
Edição: Saída de Emergência
Nº de páginas: 544

"Diz-se que o Espinho de Camorr é um espadachim imbatível, um ladrão mestre, um amigo dos pobres, um fantasma que atravessa paredes. De constituição franzina e quase incapaz de pegar numa espada, Locke Lamora é, para mal dos seus pecados, o afamado Espinho.
As suas melhores armas são a inteligência e manha à sua disposição. E embora seja verdade que Locke roube dos ricos (quem mais vale a pena roubar?), os pobres nunca vêem um tostão. Todos os ganhos destinam-se apenas a ele e ao seu bando de ladrões: os Cavalheiros Bastardos.
O submundo caprichoso e colorido da antiga cidade de Camorr é o único lar que o bando conhece. Mas tudo vai mudar: uma guerra clandestina ameaça destruir a própria cidade e os jovens são lançados num jogo de assassinos e traidores onde terão de lutar desesperadamente pelas suas vidas. Será que, desta vez, as mentiras de Locke Lamora serão suficientes?"

A primeira coisa que me chamou a atenção neste livro foi a capa. Não sei porquê, faz-me lembrar uma Veneza Renascentista ou, talvez, ainda mais antiga; despertou a minha curiosidade e não consegui mesmo resistir... Valeu a pena!

A acção passa-se em Camorr uma importante Cidade-Estado que, apesar de não ser a Veneza da minha imaginação, achei muito interessante. A estrutura política é-nos bem explicada pelo autor, assim como as tradições, traições e ligações sociais e outras que, na maioria dos casos, são bastante intrincadas.
Não achei que a narrativa decorresse a um ritmo alucinante, nem nada que se lhe pareça, mas de algum modo o autor conseguiu prender-me a atenção logo nos primeiros capítulos. Talvez tenha sido a curiosidade acerca de um ladrão que rouba demais, que rouba por gosto...  Além da semente da curiosidade que desde cedo começa a germinar no leitor, outra coisa que serve para nos deixar "agarrados" ao livro é o facto de Lynch ir alternando a narrativa presente com a de factos passados relativos às histórias pessoais de cada um dos personagens. Deste modo conseguimos não só conhecê-los melhor mas também compreender com maior alcance as suas acções e reacções. O humor também está sempre presente aligeirando algumas situações mais complicadas e conseguindo arrancar-nos algumas gargalhadas.

Quanto ao mistério e à intriga propriamente dita... adorei. As cenas do passado remetem para o presente e vice-versa, muitas vezes dando-nos a sensação de que já conseguimos antever os passos seguintes da trama mas nesses precisos momentos há sempre qualquer coisa, qualquer reviravolta e voltamos quase à estaca zero (mas é só às vezes...). Os  planos e as mentiras de Locke, tanto em adulto como em criança, são rebuscados e inteligentemente deliciosos, quase nos dão vontade de ter participação activa num dos seus crimes. Fiquei sem sombra  de dúvidas a desejar ser "espectadora" de mais um golpe de mestre em breve.

Quanto aos pontos negativos, tive pena de ver um fraco aproveitamento de alguns personagens que prometiam muito (não posso dizer nomes sem deixar aqui um spoiller do tamanho de hoje e de amanhã) e  que agora também já não vou conhecer melhor porque... morreram. Pois é, mas devia ter adivinhado que algo do género podia vir a acontecer visto Martin ter considerado a "história original e cheia de vigor" e Lynch "um novo autor brilhante". Por ai devia perceber que alguns dos meus personagens preferidos iam sofrer algum tipo de dano severo.
Também a magia e os magos foram pouco explorados, a meu ver. Mas como esses não tiveram um fim trágico penso que os vamos poder voltar a ler e saber mais sobre eles numa das próximas aventuras dos Cavalheiros Bastardos. Até porque com o final deste volume... o próximo promete!!

Gostei bastante. Recomendo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dos mal-entendidos...

A coisa não é normal mas hoje estou aqui para apresentar um pedido de desculpas...  Talvez o tivesse escrito noutros termos, se tudo se tivesse passado noutros termos. Mas como a maioria de vocês até já deve ter percebido do que falo e de como a coisa começou... Não vamos deixar ninguém no escuro e vamos lá deixar tudo explicadinho.

Há uns dias publiquei um post no qual disse que, em colaboração com o tradutor e autor Francisco Niebro, ia começar a publicar "Orgulho e Preconceito" em mirandês. Nunca disse que a ideia era minha nem coisa que o valha. No primeiro capítulo publicado, fiz referência ao Jane Austen Portugal  onde o leitor pode facilmente constatar que a publicação, por parte daquela equipa, dos ditos capítulos vai muito mais adiantada. Ora, por aqui se via logo que a ideia não era minha nem inédita. E, devo acrescentar, nunca sequer agradeci um comentário que me felicitasse pela iniciativa (a não ser o do tradutor).
Nunca tendo eu dito que a ideia era minha e tendo até deixado aberto caminho para aquele blog foi com alguma surpresa que hoje recebi este comentário:

"Cara Alice,

antes de mais, gostava de a felicitar por ter adotado este projeto. É, de facto, uma mais-valia para o mirandês e para todos os leitores que apreciam os romances de Jane Austen e, ainda, para todos os que querem saber mais sobre a língua mirandesa e apostam na sua preservação. Sobre isto, poderá ver o post que publiquei no Jane Austen Portugal: http://janeaustenpt.blogs.sapo.pt/280798.html
Contudo, como autora da ideia da tradução e como co-autora do blogue que foi o berço desta ideia e onde ela deu os primeiros passos, fico triste com a forma como a Alice se apoderou da mesma, tomando-a como sua, esquecendo a sua verdadeira génese. Creio que o seu mérito não seria menor se tivesse feito uma referência digna ao blogue onde nasceu este projeto (o Jane Austen Portugal), em vez de fazer uma simples remissão (em letra reduzida) para a obra da autora - e isto apenas na tradução do primeiro capítulo. Uma pareceria entre os dois blogues seria mais simpática e até frutífera.
Estou, todavia, certa de que não o terá feito por mal ou com essa intenção declarada; mas é a ideia que passa, Alice. Entendo-a mais como entusiamo do que como a intenção referida. Neste mundo dos blogues (onde a Alice está há mais tempo do que eu), também tem que existir ética e esta passa não só pelo que acabo de referir, mas também, por se colocar a fonte de onde se retiram as fotografias. É que desta forma, ganhamos todos.
Pelo que fica dito, venho pedir-lhe o favor de fazer um texto retificativo à apresentação do projeto ou uma correção ao mesmo, remetendo os devidos créditos a quem pertencem (não digo a mim, mas ao Jane Austen Portugal). É um direito nosso e um dever seu."


Muito educado, não ponho isto em causa mas, qualquer blogger que o ler vai pensar imediatamente no mal que se ia sentir ao receber uma mensagem tão simpática como esta. Até porque, falando na ética e na boa-fé, a maioria dos bloggers teria enviado um mail e não um comentário ao qual não temos outro modo de responder sem ser publicando-o. Nenhum de nós gosta de "lavar roupa suja" em público mas não me foi dada outra opção.

Devo portanto pedir desculpa por, inadvertidamente e sem qualquer intenção de prejudicar ninguém, ter omitido que a ideia não era minha. Ou melhor, por não ter dito nada acerca da ideia ter sido seja de quem for. Fica o pedido de desculpas.

Devo pedir desculpa por dar aos meus leitores um link através do qual podem facilmente ver que a ideia não foi pioneira e que não sou a única a  publicar este trabalho. Fica o pedido de desculpas.

Devo pedir desculpas porque, na impossibilidade de contactar alguém do Jane Austen Portugal, contactei o tradutor e pedi-lhe para publicar o trabalho dele. Ao que, devo dizer, me respondeu muito simpaticamente que sim. Fica o pedido de desculpas.

Devo lembrar a todos os nossos leitores que, se uma imagem não tem qualquer tipo de referência é porque clicando na mesma vos leva à página de onde a tirei ou, no caso dos livros, a uma página onde podem adquirir o produto. Fica a nota.

Quem me conhece pessoalmente ou apenas por aqui, além de saber que era incapaz de me apoderar do trabalho do outros ou mesmo das suas ideias e dizer que me pertenciam, deve até lembrar-se do episódio do plágio do qual fui vítima. Sinceramente, foi uma coisa inadvertida e que jamais faria intencionalmente, se bem que também não vejo razão para tanto pois, apenas anunciei que iamos publicar o trabalho do Francisco Niebro e nunca disse que a ideia era minha; além do mais, seguindo o link que vos dei, rapidamente tirariam as vossas conclusões e veriam as coisas como elas são. E eu sei que 99% dos meus leitores seguem os links...

Feito tudo o que queriam devo sinceramente pedir desculpas aos nossos seguidores e leitores pelo mal-entendido também por mim causado e que vos fez ter, pela primeira vez neste blog, um episódio deste género (coisa que detesto porque com a dita ética as coisas resolvem-se sem ser tão publicamente e com mais boa-vontade). Sinto-me na obrigação de pedir muito sinceramente desculpas ao Amadeu (Francisco Niebro) que conheço pessoalmente e por quem tenho muito, muito apreço. Deu-me autorização para publicar o trabalho dele e depois... há destas surpresas (também, ainda que inadvertidamente, por minha culpa).

Quanto à publicação de mais capítulos.... já veremos. Tenho autorização do tradutor... não sei é se continuo com vontade.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Proua i Percunceito - Capítalo I

E como o prometido é devido, aqui fica  primeiro capítulo de Orgulho e Perconceito com tradução, para mirandês,  de Francisco Niebro.
Ye ũa berdade sabida an todo l mundo que un home sulteiro, duonho dũa buona fertuna, ten de percisar dũa mulhier.
Anque pouco se saba de ls sentimientos ou oupeniones dun home nessas cundiçones quando passa a morar nun sítio nuobo, essa berdade stá tan metida na cabeça de las famílias de la bezinança, que el ye lhougo tenido cumo lhegítima propiadade dũa de las sues filhas.
“Miu caro senhor Bennet,” dixo le un die la tie del, “yá oubistes dezir que, al fin, Netherfield Park fui arrendado?”
L senhor Bennet respundiu le que nó.
“Pus fui,” tornou eilha; “la senhora Long saliu deiqui hai un ratico i cuntou me todo.”
L senhor Bennet nun le respundiu.
“Antoce nun quereis saber quien lo arrendou?” boziou la tie, zapacenciada.
“Bós ye que me quereis cuntar, i you nun beio ancumbeniente an oubir.”
Este era cumbite que bundaba.
“Antoce, miu caro, teneis de saber que la senhora Long dixo que Netherfield fui arrendado por un moço de grande fertuna de l norte d’Anglaterra; que bieno na segunda nun coche de quatro cabalhos para ber l sítio i quedou tan ancantado cun el que lhougo fizo un cumben cun l senhor Morris; que benirá a morar ne l prédio antes de l San Miguel i alguns de ls criados del ban a star na casa ende pula fin de la sumana que ben.”
“Cumo se chama?”
“Bingley.”
“Ye casado ou sulteiro?”
“Á!, sulteiro, pula cierta, miu caro. Un home sulteiro cun lharga fertuna; quatro ou cinco miles de lhibras al anho. Mira que cousa buona pa las nuossas filhas!”
“Cumo? Quei puode tener a ber cun eilhas?”
“Miu caro senhor Bennet,” contestou le la tie, “cumo podeis ser tan simprico? Quedai sabendo que stou a pensar casá lo cun ũa deilhas.”
“Ye essa la rezon del al benir parqui?”
“Rezon! boubada, cumo puodeis dezir ũa cousa dessas? Mas ye bien probable que benga a gustar dũa deilhas, i por esso teneis de lo ir a besitar mal apenas chegue.”
“Nun beio rezon para esso. Puodeis ir alhá bós culas rapazas, ou podeis mandá las a eilhas solas, l que talbeç inda seia melhor, puis cumo sodes tan guapa cumo qualquiera deilhas, l senhor Bingley puode bos melhor querer a bós.”
“Stais me a agabar, miu caro. Ye berdade que yá tube la mie parte de belheza, mas agora nun cuido que seia algo de stroudinairo. Quando ũa mulher ten cinco filhas crecidas, ten que deixar de pensar na belheza deilha mesma.”
“Nesses causos, ũa mulhier nun ten muito que pensar na belheza.”
“Mas, miu caro, a sério, teneis que ir a besitar l senhor Bingley mal el benga pa la bezinança.”
“Garanto bos que nun quiero agarrar esse cumpermnisso.”
“Mas lembrai bos de las buossas filhas. Atentai solo ne l partido que serie para ũa deilhas. Sir William i Lady Lucas stan decididos a ir, i solo cun esse perpósito, puis bien sabeis que eilhes nun besítan ls nuobos bezinos. A sério, teneis de ir, puis para nós será ampossible besitá lo, se bós nun furdes.”
­“Cuido que teneis scrúpalos a mais. Stou cierto que l senhor Bingley quedará mui cuntento por bos ber; i you mandarei le ũas lhinhas por bós pa le assegurar que cunta cul miu mais sincero cunsentimiento para que el se case cun la rapaza que scolhir; assi i todo talbeç deba d’acrecentar algue palabra a fabor de la mie pequeinha Lizzy.”
“Deseio que nun fágades ũa cousa dessas. Lizzy nun ye melhor que las outras; tengo la certeza que nien metade ye guapa do que Jane, nien metade ye alegre do que Lydia. Mas bós stais siempre a dá le la perferéncia a eilha.”
“Ningũa deilhas ten muito que se le requemende,” respundiu le el; “son boubas i eignorantes cumo las outras rapazas; mas Lizzy ye un cachico mais mexida que las armanas.”
­“Senhor Bennet, cumo podeis falar assi de las buossas filhas? Teneis gusto an me zgustar. Nun teneis pena ningũa de ls mius probes nérbios.”
“Stais anganhada, querida. Tengo le muito respeito als buossos nérbios. Son bielhos amigos mius. Yá parriba de binte anhos que bos oubo falar deilhes cun muita cunsidraçon.”
“Á, nun sabeis l que you sufro.”
“Mas spero que quédedes bien i bíbades para ber muitos moços desses de quatro miles de lhibras al anho que béngan a bibir pa la bezinança.”
“Nada mos adelantrará, se beníren binte desses moços i nun los quejirdes besitar.”
“Podeis star cierta, querida, que quando eilhes fúren binte, besitarei los a todos.”
L senhor Bennet era ũa mistura tan rala antre listo, caçuador, calhado i de lhunas, que la spriença de binte i trés anhos nun habie chegado pa que la tie le coincira l carátele. Assi i todo, l deilha era menos custoso d’antender. Era ũa mulhier de pouca anteligença, de pouca cultura i de génio zeigual. Quando se aborrecie manginaba que staba nerbiosa. L solo oujetibo de sue bida era casar las filhas; l cunsuolo deilha, éran las besitas i las amboras.


Podem saber mais sobre as obras da autora no Jane Austen Portugal

sábado, 28 de janeiro de 2012

Proua i Percunceito


A partir da próxima semana, com a colaboração de Francisco Niebro, publicaremos (à medida que forem sendo traduzidos) os vários capítulos da obra de Jane Austen "Orgulho e Perconceito". E qual é a novidade? É que vamos publicar os capítulos na sua tradução para a língua mirandesa.

Como a coisa não é fácil de fazer, não há dias certos para a publicação. Assim que estiverem traduzidos faço um post com o material e coloco uma ligação permenete numa das barras laterais do blog para que os interessados possam aceder sempre que quiserem.

Espero que haja por ai algumas pessoas a quem a ideia agrade, é um bom modo de ter contacto com uma língua nova ou de poder algo novo numa língua velha :)

Até breve