sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias

Título: O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Edição: Saída de Emergência
Nº de páginas: 480

Cerca de um século antes dos eventos narrados em A Guerra dos Tronos, um jovem escudeiro parte em busca de fama e glória num dos mais famosos torneios de Westeros. Mas o destino prega-lhe uma partida e coloca-o no caminho de um rapaz misterioso que irá mudar a sua vida para sempre. A não perder para os fãs da melhor série de fantasia da atualidade. 

O Cavaleiro de Westeros abre esta coletânea com os melhores contos de George R. R. Martin. Nela encontrarão também uma cidade dominada por uma elite de lobisomens, onde ocorrem horrendos acontecimentos; um magnata excêntrico com gosto por espécies exóticas que vai ser confrontado com o que não esperava; um padre em crise de fé num mundo distante; uma mulher que vasculha universos em busca do amor perdido; ou um homem que se vê confrontado com a derradeira escolha, num mundo em que o fim da vida não equivale necessariamente à morte. Dez histórias nascidas da imaginação do criador de As Crónicas de Gelo e Fogo.

Neil Gaiman escreveu um dia que o que tem de bom um livro de contos é que mesmo que te depares com um do qual não gostas, certamente, umas páginas depois irás encontrar um que adoras. Ora, mesmo tendo sido escrito por um mestre como Martin, este livro encaixa na perfeição nesta frase de Gaiman.  Houve apenas um conto que não consegui acabar de ler por não ter mesmo conseguido entrar no espírito, outros (poucos) revelaram-se um pouco mais confusos mas, no geral, adorei este livro. Não gostei desta leitura apenas pelos contos em si mas também pelo modo como os mesmos nos são presentados. Antes de cada um dos contos propriamente ditos, Martin faz-nos uma introdução (às vezes não muito pequena) sobre cada um deles e aquilo que lhes deu origem, revelando, assim, ao leitor alguns pormenores de determinados momentos da sua própria vida. Estas introduções ajudam-nos não só a compreender melhor as histórias mas também a conhecer melhor o autor.

Penso que seria penoso para quem visita esta página que me pusesse aqui a dissertar sobre cada um dos contos, além de que, tal possibilidade, poderia retirar-vos algum do prazer que é a descoberta de todos os pequenos pormenores nas diversas histórias (porque ia inevitavelmente cair em spoillers por muito que o tentasse evitar). Por isso, penso que a melhor maneira de realizar esta tarefa hoje será deixar-vos uma lista dos contos incluídos nesta edição, dando-vos uma pequena opinião apenas sobre aqueles de que mais gostei, e ficar à espera dos vossos comentários - gostava que me dissessem de vossa justiça, qual a leitura que mais vos agradou, a que menos gostaram...

Assim sendo:

  • As Canções solitárias de Larren Dorr - Gostei bastante deste conto. Fala-nos da solidão e da necessidade de amor, carinho e companhia que é inerente ao ser humano. A título de  curiosidade posso dizer-vos que aqui começamos a notar a queda especial do autor para o uso do termo Canção e vemos o que talvez seja o nascer dos Sete (os deuses de Westeros).
  • O Cavaleiro de Westeros - Qualquer fã de Martin vai adorar ficar a saber mais sobre o passado das famílias que tão bem conhecemos de Canções de Gelo e  de Fogo. Adorei. (Esta é a história da BD publicada pela SdE de que vos falei aqui ).
  • Uma Canção para Lya
  • A Cidade de Pedra
  • Flormordentes - Um conto maravilhosamente simples sobre a mente humana e a sua capacidade de acreditar naquilo que quer. A mentir assumindo a forma de verdade e a desilusão que de nós se apossa quando a verdade é tudo o que resta. O mundo em que se passa esta narrativa é simplesmente mágico e deixou-me cheia de curiosidade e vontade de saber mais.
  • O Caminho de Cruz e Dragão - Talvez por ter passado muitos anos num colégio de freiras e por pôr em causa tudo aquilo que lá me diziam gostei desta pequena sátira religiosa e os seus Inquisidores interestrelares, de um novo messias e do poder que a mentira pode ter quando nos é apresentada como uma verdade superior, como uma doutrina ou fé.
  • Reis-de-Areia - Medoooooo...!! Apesar de logo no início da história sermos capazes de adivinhar que a coisa não vai acabar bem, Martin dá voltas e reviravoltas e quando chega o final consegue deixar-nos com aquele friozinho no estômago. Uma pitadinha daquele medo estúpido (porque sabemos que não há nada a temer) mas é isso mesmo que se espera de um conto de terror.
  • O Homem em forma de Pêra
  • Sob Cerco
  • Negócios de Peles - Suspense, mistério, polícias corruptos, crimes sangrentos, magia e lobisomens. Se tinha ficado super-fã dos vampiros deste senhor quando li o Fevre Dream com este conto fiquei a adorar os seus lobisomens. Tenho pena que não se tenha ainda dedicado a algo mais longo dentro do género (pelo menos não, que eu saiba) porque foi um final mesmo em grande para este livro.

Concluindo, quem está à espera de mais Gelo e Fogo que se desengane. Esta é uma apresentação das espectaculares capacidades deste autor nas diversas áreas sobre as quais já se debruçou. Uma selecção magnífica de contos para ler com calma (optei por nunca ler dois de seguida para não correr o risco de me confundir depois!!) e aproveitar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dystopia Reading Challenge 2013

Host: Blog of Erised

Bem, nesta altura do ano todos começamos a fazer os balanços habituais: as leituras que fizemos, as que queriamos ter feito, as melhoes ou as piores leituras do ano... E começamos também a preparar as leituras do próximo ano. Eu não sou excepção à regra. Hoje decidi participar num desafio literário que achei interessante, ler "distopias" (podem fazer clik na imagem acima para irem dar directamente à página). Vou tentar chegar ao nível 2 - Rebel ppor me parecer o mais razoável mas... logo se verá!!!

Os níveis são:
Level 1: Recruit (1 to 6 books)
Level 2: Rebel (7 to 12 books)
Level 3: Revolutionist (13 to 18 books)
Level 4: Leader (19+ books)

Ainda não fiz a minha lista de leituras, até porque tenho como objectivo, no ano que vem, deixar-me de tretas e começar a ler mais em inglês e francês e pode ser que este desafio seja um bom incentivo. Vou-vos pondo ao corrente até porque nas regras diz que não é necessário ter uma pré-lista, apenas que se vá lendo e que nos divirtamos com isso.


Mais alguém vai aderir??

domingo, 9 de dezembro de 2012

Proua i Percunceito - Capítalo XIV





A la cena, l Senhor Bennet quaijeque nun dixo nada; mas quando ls criados salírun, pensou que era altura de cumbersar un cachico cul sou huospedo i antoce amentou nun assunto que cuidaba que fura de l agrado del, amostrando le la suorte que el parecie que tubira cula sue ama. L’atencion de Lady Catherine de Bourgh an relaçon als deseios del, i la cunsideraçon pul cunfuorto del, parecien le mui grandes. L Senhor Bennet nun podie haber scolhido melhor. L senhor Collins fui mui buono ne ls sous lhoubores. L assunto oumentou la solenidade que yá era questumada ne ls sous modos, i dando se ls aires mais amportantes assegurou que «nunca an sue bida bira un cumportamiento assi nũa pessona de la alta sociadade—un tal respeito i afablidade cumo ls que el coincira an Lady Catherine. Eilha habie quedado ancantada por aprobar dambas las práticas que el yá tubira la honra de fazer delantre deilha. Eilha tamien lo cumbidara dues bezes para cenar an Rosings, i inda l sábado atrasado l mandara chamar para cumpletar l jogo de quatrilho a la belada. Lady Catherine era tenida por muita giente coincida del cumo ũa tie mui amprouada, mas el nunca bira neilha mais que delicadeza. Eilha siempre le falara cumo a qualquiera outro cavalheiro; eilha nun era nada contra que el fusse mais de l’asa de l cántaro culas outras familhas de la bezinança nien que de beç an quando salisse de la paróquia por ũa sumana ou dues, de bejita a  parientes del. Eilha até aceitara acunselhá lo a casar se assi que podira, çque el scolhira de modo a nun dar muito nas bistas; i ũa beç fura a bejitá lo a la sue houmilde casa, adonde aprobou todas las altaraçones por el feitas, i chegando eilha mesma a dar le algues eideias—uns stantes ne ls quartos de l sobrado».

Todo esso stá mui bien i ye muita delicadeza de la parte deilha,” dixo la senhora Bennet, “i stou cierta de que se trata dũa tie mui agradable. Ye ũa pena que las grandes senhoras nun séian mais aparecidas cun eilha. Eilha bibe acerca de bós?”

L jardin adonde stá la mie houmilde casica solo ten ũa caleija a apartá lo de Rosings Park, adonde Sue Eicelença mora.”

“Parece me que dezistes que eilha era biúda? Ten algue familha?”

“Eilha solo ten ũa filha, l’ardeira de Rosings, i de grandes propiadades.”

“Á!” dixo la Senhora Bennet, abanando la cabeça, “anton stá an melhor situaçon que l mais de las moças. I cumo ye la rapaza? Ye guapa?”

Ye ũa moça mui ancantora. La própia Lady Catherine dixo que, ne l que respeita a berdadeira belheza, la Menina Bourgh arrepassa an muito la mais guapa de l sexo deilha, puis hai neilha aqueilhas feiçones que çtínguen ũa moça nobre de nacéncia. Zgraciadamente ten ũa custituiçon amalinada, l que la ten ampedido de abançar an ciertos campos de la sue eiducaçon que, nun fura esso, haberie alhá chegado sien problemas, cunsante m’anformou la tie que ourientou l’eiducaçon deilha, i que inda mora cun eilhas. Mas eilha ye mui amable, i amenudadas bezes ten la bondade de passar a la mie houmilde puorta na sue carrocica cun sous cabalhicos.

Yá fui apersentada na sociadade? Nun se me lembra de haber oubido l nome deilha antre las damas de la corte.”

“L mal stado de la salude deilha nun la deixa, anfeliçmente, ir a la capital; i por essa rezon, cumo you le dixe un die a Lady Catherine, nun tubo la Corte Británica l sou mais guapo anfeite. sue senhorie pareciu agradada cula eideia; i podeis manginar cumo quedo feliç por an qualquiera oucajion le ouferecer estes pequeinhos i delicados cumprimientos que a las ties siempre le gústan. Por mais dũa beç le tengo ouserbado a Lady Catherine, que l’ancantadora filha deilha parece que naciu para ser duquesa, i que l mais alto títalo, an beç de le traier amportança, inda quedarie por eilha acrecentado. Ye esta culidade de cousicas que le agrádan a sue eicelença, i you cunsidro me specialmente oubrigado a tener cun eilha essas atençones.”

Teneis toda la rezon,” dixo l Senhor Bennet, “i dai grácias por tenerdes l talento de agabar cun delicadeza. Puodo preguntar bos se essas tan amables atençones bos sálen assi ne l momento, ou son purmeiro studadas por bós?”

“Eilhas bénen subretodo de l que se passa n’altura, i anque a las bezes m’adbirta a pensar i andonar eilegantes agabones que puodan serbir para las oucajiones que aparéçan, fago siempre de modo a que aparéçan cumo l menos studadas possible.”

Las suposiçones de l Senhor Bennet batírun cierto. L primo del era tan absurdo cumo el speraba, i era cun grande caçuada que el l scuitaba, guardando al mesmo tiempo un aire sério i cumpenetrado, i, tirando un ou outro mirar a caras a Elizabeth, nun le amostrando l sou gusto a naide.

Assi i todo, a la hora de l chá la dosa yá era bastante, i l Senhor Bennet tubo la sastifaçon de lhebar l sou huospedo outra beç pa la sala, i, acabado l chá, de lo cumbidar a ler alto pa las ties. L Senhor Collins aceitou, i traírun le un lhibro; mas, mal apenas mirou para el (yá que todo amostraba pertencer a ũa biblioteca moble), el detubo se, i pedindo çculpa, dixo que el nunca lie remanses. Kitty mirou para el spantada i Lydia quedou de boca abierta. Traírun le outros lhibros, i apuis de algues dúbedas scolhiu Sermones de Fordyce. Mal apenas el abriu l lhibro Lydia abriu la boca, i antes que el tubisse, cũa solenidade de anfadar, lido trés fuolhas, anterrumpiu lo, dezindo:

Á mai, sabiedes que tiu Philips faç tencion de çpedir a Richard; i se el lo fazir, l coronel Forster lo bai a apreitar? Fui tie que me lo cuntou ne l sábado. Manhana bou a Meryton a saber mais cousas i a preguntá le quando ye que l Senhor Denny buolbe de la capital.

Las dues armanas mais bielhas mandórun calhar a Lydia, mas l Senhor Collins, mui oufendido, puso l lhibro d’a parte i dixo:

“Muita beç tengo arreparado ne l pouco antresse que las mocicas ténen por lhibros algo mais sérios, anque screbidos solo para bien deilhas. Esso spanta me, cunfesso bos; puis, pula cierta, nada le puode ouferecer mais bantaijes do que l saber. Mas nun quierocuntinar a anquemodar a mie primica.

Apuis, bolbendo se pa l Senhor Bennet, oufereciu se para jogar cun el un jogo de gamon. L Senhor Bennet aceitou l zafiu, ouserbando que el fazira bien al deixar las rapazas adbertíren se cullas sues fribolidades. La Senhora Bennet i las filhas pedírun le de modo mui amble çculpa por Lydia lo haber anterrumpido, i pormetírun le que esso nun se tornarie a passar s’acauso el bolbisse al lhibro; mas l Senhor Collins, apuis de le assegurar que nun le quedaba cun rábia a la primica, i que nunca iba a tener l cumportamiento deilha cumo ũa oufénsia, sentou se a outra mesa cun l Senhor Bennet, i purparou se pa al gamon.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Torre e a Morte

Título: A Torre e a Morte
Autor: Michael Innes
Colecção: 9 mm
Edição: Jornal O Público

"Quando o Lord de Erchany, Ranald Guthrie, cai das muralhas do seu castelo, numa noite de tempestade em pleno Inverno, o lendário e perspicaz detective John Appleby é chamado para investigar o caso. Ao longo do livro, são apresentadas várias hipóteses que tentam explicar este estranho "acidente", mas só uma é a verdadeira... A Torre e a Morte (1938) é um dos melhores policiais do escocês Michael Innes (1906-1994), pseudónimo de John Innes Stewart, que não resiste a confundir os factos com elementos fantásticos e surreais."

Autor de vários policiais Michael Innes publicou este título em 1938. Por cá, foi editado na colecção Xis e, mais tarde, pela Livros do Brasil na colecção vampiro. Em boa hora o Público decidiu incluir este título na 9mm, é um verdadeiro clássico dos policiais.

Quem prefere os policiais modernos, mais realistas e com maiores referências às tecnologias, pode ter certas reticências quando confrontado com as insólitas circunstâncias que rodeiam uma estranha morte na Escócia profunda do virar do século e às alusões ao sobrenatural. Contudo, em minha opinião, a mestria de Innes na criação de ambientes e personagens, aliada à enorme qualidade narrativa e à capacidade revelada para trocar as voltas ao leitor com as situações mais inesperadas, depressa farão o mais relutante ultrapassar as suas dúvidas, deixando-o rendido à escrita deste autor.

A narrativa gira em torno de uma torre e de uma morte (uau...!! a minha astúcia... :) ) mas além disso pouco mais sabemos. Ter-se-á Ranald Guthrie suicidado? Terá sido acidente? Homicídio?  O final e engenhoso e inusitado, como tudo neste livro mas o modo como o leitor o atinge é, por si só, peculiar. A narrativa desenvolve-se em cinco fases, cada uma delas domínio de um personagem que nos vai dando a conhecer aquilo que sabe sobre a morte do falido castelão escocês.
A primeira parte é narrada por Ewan Bell, o sapateiro de Kingkeig (aldeia remota perdida nos confins da Escócia) que, e aqui entra o insólito e o irónico, cita os clássicos latinos e é um dos homens mais influentes e letrados dos arredores. É pela sua voz que ficamos a saber que no castelo vivem, além de Ranald Guthrie, a sobrinha deste (um parentesco que suscita diversas dúvidas e muitos mexericos); Tannas, um jovem doente mental que acabamos por não perceber muito bem como ali foi parar; o sinistro mordomo Hardcastle e a mulher deste. Ewan dá-nos também a conhecer os factos e acontecimentos que antecedem a morte de Guthrie e deixa-nos a par de todos os boatos e mexericos da aldeia (sempre referindo que o são).

Numa segunda fase, o narrador é Noel Gilby, um jovem dandy que, após um acidente de automóvel numa noite de neve, se vê obrigado a pedir asilo no decrépito castelo. Com ele chega Sybil Guthrie, parente distante do falecido. Gilby escreve uma carta-diário dos acontecimentos que têm lugar no castelo, incluindo a morte de Randal, com o intuito de se justificar à sua noiva. Com a sua narração o mistério começa a adensar e o leitor sem saber o que há-de pensar de tão estranhas ocorrências.

O terceiro interveniente é Aljo Weddeburn, advogado/ solicitador, chamado por Noel Gilby que ao analisar os factos é o primeiro a tentar lançar alguma luz (com lógica) sobre os mesmos. Ainda assim, as suas teorias têm que esperar pela intervenção e acção do inspector Appleby - o nosso quarto narrador- que virá investigar convenientemente o caso.

O último interveniente... vou deixar que o descubram os curiosos que decidirem ler este livro. Além de ser um enorme spoiller  mencioná-lo, iria estragar toda a surpresa do final. Apenas posso dizer que é alguém que nos conta um pouco do passado da família Guthrie, em particular sobre Ranald e os seus irmãos.

Os suspeitos são muitos - todos os habitantes do castelo e outros dois personagens - e aquilo que parecem ser as mais ocas trivialidades dadas a conhecer por mero acaso acaba, muitas vezes, por se revelar um pormenor importante e decisivo para o desfecho da estória. É um livro para ler com calma e saborear.

Recomendadíssimo.