quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Top Ten Tuesday - Top Ten Favorite Characters

Ontem, por motivos de ordem técnica que me são completamente alheios (chiça...!! quase parece que trabalho na Carris ou na Metro de Lisboa... :) ) não consegui publicar este post. Pois é, às vezes a minha crónica capacidade de "comunicar" convenientemente com as máquinas prega-me destas partidas e dá um arzinho da sua graça. Por isso, decidi publicá-lo hoje, embora já não seja terça-feira.
Esta semana, o desafio era dar a conhecer as nossas dez personagens favoritas dentro de um género literário. Como os livros que mais me agradam e que mais leio são os de fantasia, vou apresentar-vos aqui as minhas dez personagem preferidas no universo fantástico (ou no pouco que dele conheço). Não há qualquer ordem de preferência. A única coisa que poderá saltar à vista é que adoro personagens femininas fortes ou personagens com maior carga humoristica. Fica, então, a lista:

  • Tasslehoff das Crónicas de Dradonlance - já há muito tempo que li estes livros (que vão agora começar a ser editados pela SdE) mas um dos personagens que mais marcado ficou na minha memória foi o Tasslehoff. É um ser pequenito do género do burrik das Crónicas de Allarya. Muito humor e uma grande carrada de mal-entendidos com este pequeno que, no final, revela ser sempre mais profundo e inteligente do que parece à primeira vista.

  • Shirakawa Kaede da Saga dos Otori - de início é o retrato puro e simples da mulher submissa do Japão feudal. Mas por detrás do estereótipo o leitor descobre uma mulher forte, capaz de quebrar todas as convenções por aquilo em que acredita.

  • Cassandra de Tróia de O Presságio de Fogo - uma jovem que sofre com o dom que lhe foi dado pelos deuses e com uma guerra às portas da sua cidade natal. Ainda assim, não se deixa ir abaixo e luta com todas as armas que tem ao seu dispor para salvar aqueles que ama e aquilo em que acredita.

  • Nihal das Crónicas do Mundo Emerso - uma jovem inocente, a última da sua raça, que luta para salvar o mundo em que vive da opressão de um tirano sem coração. Gostei mesmo dela é muito inocente em certas coisas mas muito preserverante e verdadeiramente "bad ass" quando as circunstâncias assim o exigem.

  • Jaime Lannister das Crónicas de Gelo e de Fogo - eu sei que ele era muito ruim, eu sei. Também sei que pode virar a casaca a qualquer momento se assim lhe for conveniente mas eu gosto do loiraço! Fazer o quê?! É um personagem que cresce, que se transforma e evolui imenso ao longo da leitura. Além disso, tem ali um magnetismo qualquer que não consigo explicar.

  • Phédrè Nó Delauney da Saga de Kushiel - toda a história de vida de Phédrè seduz, não apenas a sua condição de anguisette mas também as suas origens e as aventuras por que passa ao lado do seu Joscelin. O mundo em que vive e a sua complexidade contribuem em muito para a marca deixada no leitor. Adoro esta dupla.

  • Kvothe das Crónicas do Regicida - Como estalajadeiro, como jovem estudante inocente, como assassino... Kvothe e o seu misterioso percurso de vida (apesar de ainda não lhe conhecer o fim) convenceram-me desde o primeiro momento.

  • Locke Lamora dos Cavalheiros Bastardos - São o bom humor e um sentido de justiça algo estranho, temperados com uma boa dose de irreverência que marcam a personalidade deste temerário bandido / Justiceiro "à moda antiga". Uma espécie de Robin Wood de quem é impossível esquecermo-nos.

  • Bobo das Crónicas do Assassino - personagem carregado de mistério e que todos os outros (pelo menos a maioria) desprezam é sempre mais do que aquilo que o leitor espera. Com uma capacidade de mudança praticamente camaleónica e uma fonte de conhecimentos quase inesgotável surpreende-nos a cada uma das suas aparições. Uma verdadeira caixinha de surpresas que, penso, agrada a todos os fãs desta saga.

  • Saetan SaDiablo da Trilogia das Jóias Negras - Outra verdadeira caixinha de surpresas e de bom humor este afável senhor dos infernos capaz de fúrias sem descrição. Podia entrar para aqui numa data de spoilers para o descrever mas, quem conhece sabe do que falo e aos outros vou deixar para que descubram por si. Quanto a mim, adoro-o.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Cinder

Título: Cinder
Série/Saga: Lunar Chonicles, #1
Autor: Marissa Meyer
Tradução: Victor Antunes
Edição:  Editorial Planeta
Nº de páginas: 318
ISBN: 9789896573270

"Com dezasseis anos, Cinder é considerada pela sociedade como um erro tecnológico. Para a madrasta, é um fardo. No entanto, ser cyborg também tem algumas vantagens: as suas ligações cerebrais conferem-lhe uma prodigiosa capacidade para reparar aparelhos (autómatos, planadores, as suas partes defeituosas) e fazem dela a melhor especialista em mecânica de Nova Pequim. É esta reputação que leva o príncipe Kai a abordá-la na oficina onde trabalha, para que lhe repare um andróide antes do baile anual. 
Em tom de gracejo, o príncipe diz tratar-se de «um caso de segurança nacional», mas Cinder desconfia que o assunto é mais sério do que dá a entender. 
Ansiosa por impressionar o príncipe, as intenções de Cinder são transtornadas quando a irmã mais nova, e sua única amiga humana, é contagiada pela peste fatal que há uma década devasta a Terra. A madrasta de Cinder atribui-lhe a culpa da doença da filha e oferece o corpo da enteada como cobaia para as investigações clínicas relacionadas com a praga, uma «honra» à qual ninguém até então sobreviveu. Mas os cientistas não tardam a descobrir que a nova cobaia apresenta características que a tornam única. Uma particularidade pela qual há quem esteja disposto a matar."

Quando parti para a leitura de Cinder já sabia de antemão tratar-se de uma distopia que pretendia recontar a fábula de Cinderela. Também tinha a perfeita consciência de que se trata de um livro virado para um público mais YA, de modo que não exigi muito da autora. Nesse aspecto até fui surpreendida. Esperava uma coisa algo mais infantil do que aquilo que realmente encontrei e só me posso dizer contente com isso. Ainda assim, nem tudo são rosas e o livro também tem as suas falhas e estas podem significar muito para alguém com expectativas mais elevadas.

Depois da Quarta Guerra Mundial o mundo sofreu enormes modificações e, ainda assim, muitas coisas continuam a ser como hoje as conhecemos. Na capital da Comunidade dos países orientais, Nova Pequim, há cidadãos de primeira e aqueles que tentam sobreviver como podem, há aqueles que trabalham arduamente para ganhar o seu sustento e os que têm uma vida de fausto e riqueza, existem os humanos e, muito abaixo deles, os cyborgs. Parece-me a mim que o ponto alto do livro é mesmo a descrição da cidade que, embora nem sempre evidencie de modo directo estas distinções sociais, nos dá um retrato muito realista desta Nova Pequim assolada pela peste e em que os humanos usam os cyborgs e andróides a seu bel-prazer como se nenhuns deles fossem dignos de respeito ou dotados de sentimentos. Até os mais pobres entre os pobres olham para estes seres como se nada fossem senão lixo. 

Acontece que um desses cyborgs é especial. Cinder(ela) é a melhor mecânica da cidade. Ironicamente, ela é também uma jovem cyborg cujo corpo é 36% constituído por partes electrónicas e mecânicas. Trabalha arduamente para sustentar a madrasta e as duas irmãs mas está longe de ser a angélica "santinha de altar", boazinha e resignada a que nos habituamos. Tem sonhos de fuga, manda umas bocas e desobedece sempre que pode. Mas, como boa adolescente que é (e aqui foi onde a coisa começou a falhar um bocadinho, a meu ver), apaixona-se quase automaticamente quando conhece o príncipe Kai e, embora por motivos de força maior, acaba por ir ao baile e passar uma vergonha das antigas (bem ao estilo blockbuster americano...). Eu nem digo que a moça não fosse ao baile (que raio, a Cinderela sem baile não é Cinderela!) mas com tanta intriga política e com tanto mistério, tanta acção a coisa podia ter sido toda um bocadinho menos previsível.  É que, caramba, a personagem tem todas as características necessárias para se tornar uma durona, um personagem feminino forte que não está - nunca esteve ao longo do livro - à espera que o príncipe venha salvá-la mas um leitor um bocadinho mais experiente consegue adivinhar o desfecho TODO mais ou menos a meio do livro. É uma pena porque a moça tem potencial (e a ideia por detrás do livro também, sejamos justos).

Ficou por explicar o mistério todo por detrás dos Lunares. Sim, há vida na Lua e gostei bastante da ideia mas a autora falhou ao não a desenvolver, pelo menos neste volume. Não sabemos de onde vêm os poderes dos Lunares ou o porquê da maldade que parece ser genética na sua família real e súbditos mais próximos. São maus porque são maus!! Mas penso que a ideia da autora talvez tenha sido introduzir o tema para depois o desenvolver noutro livro. Pelo menos, dá disso sinais. Outra coisa que me custou um bocado foi a falta de caracterização dos personagens (excepto a rainha má - Levana). Só nos são dados aspectos mais ou menos genéricos, não há uma descrição mais detalhada e, por vias de estarmos em Nova Pequim, levei o tempo a tentar imaginar as personagens na sua versão oriental (sem contar com os lunares, o doutor, Fateen e a própria Cinder porque nos são apresentados como tendo algumas características diferentes. Mas se calhar, também não fui muito bem-sucedida nesta parte). Foi confuso!!

Em suma, é uma leitura leve  e que acaba por fluir muito facilmente devido a toda a acção e ao humor (principalmente com o andróide Iko que conseguiu arrancar-me boas gargalhadas e até uma lagrimita com o seu destino...). A heroína e o cenário têm imenso potencial e podem evoluir de forma muito positiva mas, antes de ler, lembrem-se que se trata da Cinderela e que é literatura YA. Vou, sem sombra de dúvida, dedicar-me a Scarlet - o segundo volume da série - logo que possível.

6,5/10

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Anquanto la lhengua fur falada

Aviso: Este post é bilingue.

Hoje não venho falar sobre livros. Trago-vos uma reportagem que saiu na edição de hoje do Jornal i sobre o Mirandês. Sei que o assunto não interessa a muitos de vós mas, além de pessoalmente ser uma temática que me é cara, tenho reparado que os posts sobre livros nesta língua e a tradução de Orgulho e Preconceito têm cada vez mais procura e mais leitores neste cantinho. Quer dizer que a alguns a coisa ainda interessa. Porque sou de Miranda do Douro (e o meu pai de uma aldeia próxima) conheço bem a realidade de que fala a reportagem - a morte de uma língua por falta de apoios e por causa da desertificação da região em que é falada. 
Espero que não se importem com este meu pequeno "devaneio" e que gostem da reportagem. Talvez consiga fazer-vos um dia dizer umas palavritas nesta bela língua, ou levar alguns de vós ao Intercéltico e a comer uma bela Porta à Mirandesa ou uma genuína alheira nos intervalos dos concertos :)

Hoije nun bengo falar subre lhibros. Trago-bos ua reportaige que saliu na eidiçon d'hoije de l Jornal i subre l Mirandés. Sei que l'assunto nun antressa a muitos de bós mas, para alhá de pessonalmente ser ua temática que me ye cara, tengo reparado que ls posts subre lhibros nesta lhéngua i la traduçon de Proua i Preconceito ténen cada beç mais percura i mais lheitores neste cantico. Quier dezir que l'alguns la cousa inda antressa. Porque sou de Miranda de l Douro (i l miu pai dua aldé próssima) conheço bien la rialidade de que fala la reportaige - la muorte dua lhéngua por falta d'apoios i por causa de la zertificaçon de la region an que ye falada. 
Spero que nun se amporten cun este miu pequeinho "debaneio" i que gusten de la reportaige. Talbeç cunsiga fazer-bos un die dezir uas palabritas nesta guapa lhéngua, ó lhiebar alguns de bós al Antercéltico i a comer ua guapa Puorta a la Mirandesa ó ua genuína tabafeia ne ls anterbalos de ls cuncertos :)

Um enorme bem-haja ao Amadeu ferreira e a tantos outros, muitos deles meus amigos ou conhecidos, pelo incansável trabalho em prol da defesa da nossa língua mãe. Fica, agora a reportagem.

Un einorme bien-haba al Amadeu ferreira i a tantos outros, muitos deilhes mius amigos ó coincidos, pul ancansable trabalho an prol de la defesa de la nuossa lhéngua mai. Queda, agora la reportaige.



Glória Vaqueiro vai na berma da estrada, a poucos metros da fronteira com Espanha e a outros tantos da aldeia de Constantim. Equilibrada em cima da burra, faz questão de explicar o porquê do meio de transporte – cada vez mais raro, mesmo em terras de Trás-os-Montes. “Não sei andar de bicicleta e nunca tirei a carta de carro. A burra dá-me jeito para ir aqui e além e é nova, só tem seis anos. É mansinha.”
A fala da transmontana é estranha: as palavras são portuguesas, mas o sotaque faz lembrar o castelhano. Mas também não é mirandês. “Só falo mirandês com quem também fala”, avisa. Glória, a dona da burra, tem 68 anos, vive com uma reforma de 400 euros e ainda se lembra do tempo em que “toda a gente” andava de burro ou a cavalo. Até o Dr. Barros, o médico de serviço na região, que morreu “há já muitos anos”, mas que palmilhava as aldeias de Miranda do Douro a cavalo para assistir os doentes em casa.
Agora toda a gente tem carro e os médicos, que escasseiam na região, não fazem serviços ao domicílio. O hospital mais próximo da aldeia de Constantim fica a mais de 15 quilómetros, em Miranda, e, se o caso inspirar cuidados de maior, só pode ser resolvido em Bragança, a quase 60 quilómetros de distância. “Mudou quase tudo, só não muda a política, que é sempre a mesma”, atira Glória, ainda do alto da burra. O que também não mudou é a língua mais usada pelos habitantes de Constantim e das outras aldeias de Miranda do Douro: o mirandês, a outra língua de Portugal, anterior à própria fundação do país e que, em 1999, ganhou o estatuto de língua minoritária.
O problema é que há cada vez menos gente em Trás-os-Montes para manter viva a tradição. Em Constantim, por exemplo, só resistem 80 habitantes (há duas décadas eram mais de 300). Na aldeia há uma única criança, com 12 anos, e o casal mais jovem anda na casa dos 40. Para os mais velhos – os que resistem –, o primeiro contacto com a língua portuguesa só se deu à chegada à escola, numa altura em que o mirandês era falado em todas as casas, mas apelidado de “fala caçurra” – a língua das gentes incultas. Glória ainda conseguiu fazer a terceira classe, mas praticamente não sabe ler. “Sei fazer o nome e orientar-me se precisar de andar de camioneta.”
A pouca escolaridade acabou por fazer com que nunca tenha esquecido a língua materna, o mirandês. “Só uso o português para falar com gente de fora ou quando tenho de ir à cidade”, explica.
Não há um cálculo rigoroso das pessoas que ainda falam a outra língua. Sabe-se, com certeza, que continua a ser usada em todas as aldeias do concelho de Miranda do Douro e ainda em três povoações vizinhas que pertencem ao concelho de Vimioso: Vilar Seco, Angueira e Caçarelhos. No total são 500 quilómetros quadrados de território, na fronteira com a província espanhola de Zamora, em que as palavras são ditas de uma outra forma.
Em 1900, o linguista José Leite de Vasconcelos estimava que existissem 15 mil falantes. Actualmente, o número não deverá ir além dos 7 mil. A diminuição de falantes foi uma constante ao longo de todo o século xx, sobretudo a partir da década de 60. Na altura, muitos chegaram a apostar que o mirandês se extinguiria de vez, muito provavelmente por volta de 1980. As profecias mostraram-se apressadas, apesar de tudo apontar para a sua extinção: em meados do século passado, com a construção das barragens do Douro, chegaram ao concelho de Miranda do Douro centenas de trabalhadores, todos falantes de português. Instalaram-se em praticamente todas as aldeias.
O mirandês deixou assim de ser a língua dominante. Nessa época, o ensino generalizou-se (nas escolas só era ensinado o português) e apareceu o fenómeno da televisão – também falada em português. Enquanto isso, muitos rapazes de Miranda eram incorporados no exército, por força da guerra colonial. E nas ex- -colónias, longe de Trás-os-Montes, foram obrigados a assimilar o português.
O mirandês foi caindo em desuso, até que conseguiu o estatuto de língua regional, em 1999, através da Lei 7/99. Portugal deixou assim de ser o único país monolingue da Europa. No mesmo ano foi aprovada a Convenção da Língua Mirandesa, criada para normalizar a escrita – uma espécie de acordo ortográfico do mirandês, que sentou à mesma mesa falantes, estudiosos e linguistas das universidades de Lisboa e de Coimbra. O princípio era simples: manter a diversidade na fala, mas criar unidade na escrita. É que o mirandês tem vários dialectos, que variam de aldeia para aldeia. E foi sempre uma língua oral, até 1884, quando José Leite de Vasconcelos publicou o poemário “Flores mirandesas” – a primeira obra escrita em mirandês. Aos poucos, a língua começou a ser escrita e actualmente existe mais de uma centena de obras publicadas – entre traduções e livros originais.
L PORSOR FALANTE Sozinho, o professor e vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) já traduziu dezenas de obras. Por pura carolice. Amadeu Ferreira nasceu em Sendim, saiu de Trás-os-Montes para se fazer doutor em Direito e construiu uma carreira sólida em Lisboa. Nos corredores da CMVM ninguém adivinha que só aprendeu a falar português aos 18 anos: em casa e na vila de Sendim só se ouvia o mirandês. Hoje, aos 62 anos, o seu domínio da língua portuguesa é perfeito, mas o inconsciente teima em pregar partidas: Amadeu Ferreira confessa que sonha sempre em mirandês. Nas horas vagas, entre o trabalho na comissão e as aulas de Direito na Universidade Nova, o professor dedica-se às traduções. Já traduziu os “Quatro Evangelhos” (“Ls quatro eibangeilhos”, em mirandês), “Os Lusíadas”, a “Mensagem”, de Fernando Pessoa”, “O Principezinho” e alguns poetas clássicos, como Horácio. Mas o recordista de vendas é o livro “Asterix l gaulés” (“As Aventuras de Astérix”) – já se venderam quase 8 mil exemplares e num espaço de apenas três meses chegou à terceira edição.
Nos últimos anos têm sido publicadas uma média de seis obras por ano. “É um trabalho cultural de cidadania”, conta Amadeu Ferreira, alertando para a pouca atenção que os sucessivos governos e as instituições locais, em Trás-os-Montes, têm dado à língua de Miranda. “O mirandês aguentou mais de mil anos, tem-se feito muito trabalho, mas não podemos continuar a assumir as responsabilidades das entidades públicas”, critica. Depois de se ter dado o reconhecimento da língua, há quase 15 anos, houve conversas com ministros, promessas de todos os governos e da Câmara Municipal de Mirandela.
“Na prática, os apoios para que a língua continue viva têm sido poucos ou nenhuns”, denuncia o professor. “A necessidade de defender as línguas minoritárias é cada vez mais uma evidência, de maneira a preservar uma parte indispensável do património cultural da humanidade e da identidade do país”, sublinha, acrescentando que as línguas estão permanentemente em perigo. “Por serem humanas, morrem se não forem cuidadas”. Amadeu Ferreira propõe, por exemplo, que a autarquia de Miranda do Douro passe a escrever em mirandês e que sejam criados incentivos de emprego aos falantes. Mais urgente que tudo o resto, diz o vice-presidente da CMVM, é a criação de um instituto central do mirandês – uma espécie de Instituto Camões à escala da língua de Miranda. O próprio ensino, que existe mas não é obrigatório, precisaria de ser mais apoiado: “Por não ser obrigatório, pode acabar a qualquer momento, deixando de se fazer a transmissão da língua.” Ou seja, a lei proclamatória de 1999 não chega. É preciso agora “que o Estado concretize os compromissos que assumiu em lei, porque a democracia linguística é um elemento importante da democracia, que deve assentar no respeito pela diferença”, resume.
L MIRANDES NAS SCUOLAS O ensino do mirandês arrancou em 1985, na Escola Preparatória de Miranda do Douro, com turmas do quinto e do sexto ano. A partir de 1999, com a proclamação da língua, o ensino foi regulamentado e alargado a todas as escolas da cidade, mas só como disciplina opcional. “A regulamentação sofre de graves deficiências, o que tem levado a uma diminuição do número de horas lectivas, à ausência de manuais e à existência de poucos professores”, aponta Amadeu Ferreira. Foram apresentadas várias propostas ao Ministério da Educação no sentido de melhorar o ensino, mas nunca foram atendidas.
Desde que se tornou oficial, o ensino tem sido ministrado sobretudo por professores autóctones, com formação nas áreas das Línguas ou da História. Duarte Martins, natural da aldeia de Malhadas, no concelho de Miranda, é há oito anos um dos mestres do mirandês. Aprendeu a falar em casa, mas só muitos anos mais tarde aprenderia a escrever a língua – depois de passar por um curso de Verão na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).
Para quem aprendeu a língua de ouvido, o trabalho dos últimos anos é notável. Basta entrar na aula de mirandês da turma de 15 alunos do 4.o B da Escola Básica de Miranda do Douro. Os miúdos têm só dez anos, já vão no quarto ano da disciplina e falam mirandês como gente crescida. A aula acontece do princípio ao fim em mirandês e ninguém falha uma resposta.
No ensino básico, e apesar de a disciplina ser opcional, a taxa de adesão é de quase 100%, mas vai diminuindo à medida que os alunos avançam no nível de ensino. “A taxa mais baixa regista-se no secundário, porque nessa fase os alunos já têm outras preocupações e menos tempo disponível”, justifica o professor. Mesmo assim, estima-se que nos últimos anos mais de 2 mil crianças tenham aprendido mirandês na escola. Só que ensinar sem mais nada não chega para manter a língua viva. Para começar, porque assim que os alunos chegam ao 12.o ano, são obrigados a sair de Miranda do Douro se quiserem prosseguir estudos. Ou, simplesmente, arranjar trabalho. “A problemática da preservação da língua está directamente ligada ao problema da fixação dos jovens. O nosso trabalho de transmissão da língua é feito, mas os falantes saem da região e na maioria dos casos nunca mais voltam, distanciando-se das suas raízes e, consequentemente, da sua cultura”, diz o professor.
L NUOBO PELIGRO Os indicadores socioeconómicos de Miranda do Douro mostram que o mirandês enfrenta agora uma nova ameaça. Real e difícil de contornar. Só entre 2001 e 2011, de acordo com os dados do censo, a população residente no concelho diminuiu 7,3%. Há dois anos havia apenas 7462 pessoas a viver na região, espalhadas por uma área total de cerca de 487 quilómetros quadrados. O número de falantes cai todos os anos – sempre que morre um velho perde-se um pedaço de cultura e os indicadores apontam para um aumento exponencial do envelhecimento populacional. Além disso, nos últimos dez anos, a taxa de desemprego subiu de 3,3% para 4,5% – o que tem levado muitos mirandeses a fugir para outras regiões do país e até para o estrangeiro.
Um dos exemplos do que a desertificação fez a Trás-os-Montes é a aldeia de Vilar Seco, no concelho de Vimioso, onde o mirandês ainda sobrevive. No único café da aldeia juntam-se todos os finais de tarde meia dúzia de velhos. Há 14 anos que não nasce uma única criança na terra. E há quase 30 que a aldeia – com pouco mais de 200 eleitores – é atravessada por uma linha de comboio abandonada. Nas paredes do café multiplicam-se cartazes escritos em mirandês. Um deles anuncia a próxima batida à raposa. Há uns anos, caçar uma podia render 3500 escudos. Hoje só sobram cinco caçadores e as peles de raposa pouco valem. “Há uns tempos apareceu aí um espanhol a comprar, pagava 10 euros por cada uma”, conta o presidente da junta, Armando Pinto, que vive em Vimioso, a quase 20 quilómetros de distância.
Outro dos cartazes expostos anuncia um torneio de sueca – os prémios variam entre um porco com 70 quilos, cordeiros, galos e chouriças. “Foi-se toda a gente embora, mas aqui há uns anos ainda havia trabalho”, garante o autarca. Nos arredores da aldeia existiam meia dúzia de grandes estábulos, que chegavam e sobravam para empregar a gente da terra, além de uma serralharia e uma carpintaria. Fechou tudo. “É irónico não termos gente, porque nunca existiram tantas estradas e tanta qualidade de vida na região como agora”, desabafa o presidente da junta.
ANQUANTO LHA LHENGUA FUR CANTADA A fuga da população tem sido a maior dor de cabeça de Paulo Meirinhos, membro do grupo de música tradicional Galandum Galundaina, que nos últimos anos se tem dedicado a dar aulas de Música às crianças de Miranda do Douro e a formar novos grupos de cantares, de danças e de tocadores da região. “Conseguimos formar os grupos, porque há interesse por parte dos mais jovens, mas a dificuldade é mantê-los. Acabam todos por se ir embora daqui e temos de começar tudo de novo”, lamenta. A língua mirandesa é uma espécie de chapéu que abriga toda uma cultura específica de Miranda e que se reveste das mais variadas formas – do teatro aos contos, das lendas aos saberes e fazeres. Passando pela música. Os Galandum Galundaina – que já gravaram três discos, um DVD e correm meio mundo a cantar em mirandês – fazem parte de uma nova geração de músicos que têm preservado a língua em forma de cantar.
São três irmãos – Paulo, Alexandre e Manuel Meirinhos – e ainda Paulo Preto. Todos estudaram Música fora da região, mas escolheram regressar às origens. Constroem instrumentos, compõem, recolhem sons tradicionais e dão-lhes uma nova roupagem. Mais moderna. “O que temos ensinado aos mais novos é que, se quisermos preservar a cultura, não podemos parar no tempo. É preciso pegar naquilo que é tradicional e trazê-lo para os novos tempos”, defende Paulo Meirinhos.
O avô dos três irmãos era carpinteiro e tocava num dos muitos grupos de pauliteiros que existiam na região – hoje sobram apenas 40 ou 50. Como herança, deixou aos netos os bombos e as caixas que tocava. E ainda o gosto pela música tradicional. “Que é muito importante na transmissão da língua”, defende Paulo Meirinhos. “Nos nossos concertos há muita gente que não fala mirandês, mas que canta em mirandês”, garante.
Unir a modernidade e a tradição tem sido também a tarefa, nas últimas duas décadas, de Mário Correia – o responsável pelo Centro de Música Tradicional Sons da Terra em Sendim. O edifício, inaugurado recentemente, era a residência de um padre, mas foi reconvertido em espaço cultural com a ajuda de financiamentos comunitários.
Nas prateleiras há centenas de CD e DVD etiquetados e meticulosamente organizados: são o resultado de dez anos de recolha no terreno de cantares e dizeres tradicionais, interpretados pela gente das aldeias de Miranda. Carolice de Mário Correia, que nem sequer é de Trás-os-Montes: os pais eram minhotos, nasceu e cresceu no Porto e formou-se em Economia. Passou pela gestão de grandes empresas, pela Inspecção-Geral de Finanças e pela Inspecção Tributária. Até que um dia decidiu fazer as malas e rumar a Miranda com uma ideia na cabeça: gravar os sons dos gaiteiros tradicionais, que na altura em 1994, estavam praticamente em extinção. O economista foi ficando, estabeleceu-se na vila de Sendim, criou uma editora – a Sons da Terra – e já lançou mais de uma centena de discos. Pelo meio inventou o Festival Intercéltico de Sendim, que está nas rotas internacionais dos festivais de músicas do mundo e que este ano vai para a 14.a edição.
O centro abriga ainda uma biblioteca, que tem servido de apoio a investigadores e estudantes da língua mirandesa – que chegam do mundo inteiro. Já passaram por Sendim estudiosos japoneses, polacos, espanhóis, húngaros, alemães, brasileiros ou austríacos. A maioria da clientela que vai chegando – cerca de 70% dos utilizadores da biblioteca – é estrangeira. E as raras vezes que aparece um português as diferenças são notórias: “Os investigadores portugueses vêm a contar os tostões e praticamente sem material de suporte”, conta Mário Correia.
Outra das jóias do centro é um espólio de mais de 50 mil fotografias antigas que permitiram fixar no tempo rostos de antigos gaiteiros, cantores e pauliteiros. Todos falantes de mirandês. “O monumento mais vivo são as pessoas”, diz Mário Correia. Mas as pessoas são a matéria que mais vai faltando em Miranda do Douro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Unidos Pelo Livro


Trago-vos óptimas noticias! 

A Editorial Presença (bem conhecida aqui neste nosso cantinho) lança hoje, em conjunto com alguns blogues, a iniciativa Unidos pelo Livro que visa estimular os leitores e aqueles que menos lêem, naquilo que aqui nos une - o gosto pelos livros e por aquilo que eles nos trazem. Assim, os nossos seguidores vão poder, através do uso de um código, usufruir de uma Oferta de 5€ de desconto em compras iguais ou superiores a 15€ no site da editora + marcador Unidos pelo Livro (imagem acima).

Esta iniciativa terá lugar entre os dias 13 e 19 de Fevereiro e os códigos funcionarão única e exclusivamente neste intervalo de tempo. 
O código do nosso blog e que os nossos leitores devem usar é:

UNIDOSPELOLIVRO5CJX

Antes de vos explicar mais detalhadamente como podem utilizar o código, devo avisar os utilizadores frequentes do site da Presença de que a utilização deste código não é acumulável com a utilização da conta-cliente. Ou seja, se utilizarem este código não vão conseguir usar o valor que têm em conta-cliente.


Para poderem usufruir desta magnifica campanha da Presença basta seguirem os seguintes passos:

1- Vão ao site da editora e escolham os vossos livros.

2- Clicar em comprar junto às imagens dos livros

3- Depois dos livros escolhidos, cliquem em "Carrinho de Compras" (canto superior direito da página)



4- Identifiquem-se ou registem-se (no "Carrinho de Compras")

5- Introduzam o código no campo "Possui algum Código-Oferta? Introduza o seu código aqui" e carreguem em "Aplicar"

6- Carreguem em "Prosseguir Encomenda" e sigam os restantes passos até finalizarem as vossas encomendas.


Boas compras e boas leituras!!