quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A Deadly Education - The Scholomance #1

Scholomance, mais que uma escola de magia, é uma obra de engenharia e poder que paira no vácuo e onde cada segundo é uma luta pela sobrevivência. Ali não há professores, a escola distribui as disciplinas e os trabalhos seguindo regras próprias que ninguém conhece e poucos conseguem sequer adivinhar; o perigo vem de, literalmente, todo o lado - a própria escola quer aniquilar todos os que nela residem; as alianças fazem-se em favor da raça ou da proveniência de cada um ou, caso não se faça parte de uma família pertencente a um enclave importante, em função das nossas capacidades mágicas e de sobrevivência. A cereja no topo do bolo? Para conseguir concluir os estudos com sucesso, temos que conseguir sair da escola travando uma luta desigual com um sem número de monstros e criaturas esfomeadas para quem não passamos de um belo petisco.

O que vos parece? Quase o mesmo que o meu secundário. E, tal como me aconteceu naquela altura, os alunos estão ali porque não têm outra hipótese. No caso deles, fugir ao momento em que a escola os teletransporta para o seu interior, lutar por ficar em casa, é uma opção mais mortal que enfrentar o destino na escola.

Confesso que nunca tinha lido Naomi Novik (shame on me...) e, inicialmente, o que me fez continuar foi a voz da personagem principal. El, é irónica e sarcástica de uma maneira deliciosa e que me prendeu. Fez-me lembrar alguém de quem gosto muito. Depois, mais que as aventuras e os mistérios dos personagens foi a escola em si que me fez virar as páginas. Querer perceber o funcionamento de tudo, a engenharia e a filosofia da escola, o sistema de magia, o porquê de certas alianças, de alguns comportamentos, a magia de cada um e como funciona, de onde saem os monstros... É, de facto um "mundo" complexo em que a imaginação da autora comanda completamente e onde nada é realmente o que parece. 

O único ponto negativo e que realmente me travava o ritmo eram as explicações. São todas feitas pela El, já que o livro é narrado na primeira pessoa e são necessárias, é um facto mas... às vezes não era ali, não era aquele o momento. Estamos a meio de uma cena de acção, uma fuga, o que eu quero saber é por onde vão os personagens, se simplesmente fogem ou se usam algum truque ou subterfugio não é, de todo, o momento para me explicarem que personagem A tem daddy issues e que, por isso, talvez tenha havido uma certa dose de injustiça há 100 páginas atrás. Enfim, há explicações que têm que ser feitas para que possamos conhecer melhor s personagens e todo o entorno mas nem sempre são feitas no momento mais pertinente.

Enquanto lia, fui-me deparando com comentários e opiniões que acusavam a autora de racismo e de xenofobia e afins por, por exemplo, a El se referir a alguns aluno como "Arabic Speaker" ou "Chinese speaker" ou por dizer que um determinado personagem tinha tido que cortar o cabelo rente como todos os outros porque uns monstrinhos quaisquer (não me lembro o nome, eles são mesmo muitos, um verdadeiro exército!!) terem feito um ninho nas tranças afro dela como o faziam sempre que alguém tinha o cabelo um bocadinho mais comprido. Ora... a autora desculpou-se pelo episódio das tranças, eu não o teria feito. Ficou bem claro para mim que as ditas criaturas se aninhavam em qualquer peruca. Por outro lado, os estudantes são muitas vezes tratados por "falante" de lingua x ou y não por uma questão de raça (a personagem principal sofre até, em alguns momentos da sua vida de racismo por ser meio inglesa e meio indiana) mas porque, no meio daquela selvajaria e daquela luta insana pela sobrevivência, por estranho que pareça, falar línguas é um elemento crucial. Das línguas que falamos depende o tipo e qualidade de feitiços (incluindo defensivos) a que podemos deitar a mão. Falar árabe não melhor nem pior que falar chinês, hindu ou sânscrito, é só diferente e pode fazer a diferença entre conseguir sair da escola ou morrer lá dentro.

Tinha sido muito mais simples para a autora jogar pelo seguro e dar-nos uma escola inglesa ou francesa ou onde fosse, cheia de alunos ocidentais  ou com uma educação ocidental e que fossem todos muito iguais. A autora arriscou. The Scholomance é a única escola de magia do mundo, para ali vão todos os adolescentes deste planeta com a mínima centelha de magia no sangue. É um caldeirão de culturas, algumas em choque (inclusive no mesmo personagem), de egos, preconceitos e onde cada minuto e cada capacidade intelectual contam para nos livrar da morte. Scholomance é assim e é assim que é descrita.
Muito sinceramente, não vi nada que tenha considerado racista ou propositadamente ofensivo a qualquer nível e acho a maioria dos comentários despropositados. Aliás, dúvido que muitos dos que criticam tenham, de facto, lido o livro - com olhos de ler e sem saltar frases, parágrafos ou capítulos. Parece-me mais um daqueles casos em que é fácil ir com a corrente e, claro, em qualquer circunstância da vida, se queres muito encontrar uma coisa vais vê-la mesmo que ela não esteja lá. 

O melhor mesmo é lerem e julgarem por vós. A mim foi um livro que me fez pensar em alguns temas importantes e até profundos, que me manteve entretida e que me despertou a curiosidade para saber como vai aquele leque de personagens desenvencilhar-se para sair da escola com vida (sinceramente, espero que a autora seja realista e mate uns quantos pelo caminho. Mas ainda a acusam de racismo por ter morto o B e não o C...). Quando sair o próximo vou ler com certeza.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

    Uma das regras mais básicas e que qualquer escritor de YA conhece é que não há assuntos tabu, ou temáticas proibidas. Os livros fazem-nos pensar, mostram-nos mundos que nos fazem pensar o mundo, oferecem-nos a capacidade de analisar criticamente e são fonte inesgotável de conhecimento, não devem, de todo, ser  locais assépticos e ideologicamente higiénicos mesmo que estejamos a falar de YA.
    Tradicionalmente, pensamos que a literatura YA não deve abordar certos temas mas, na verdade, depois gostamos quando as discussões e as chamadas de atenção estão lá porque, não raro, os livros são as únicas fontes de informação que temos, a única forma de nos identificarmos e termos algumas referências em determinadas áreas. Quantos jovens não têm ninguém com quem desabafar os seus medos e problemas senão com os livros?  É por isso que em YA não há temas proibidos. Por muito mau que seja aquilo que queres abordar, 80% dos teus leitores já tiveram contacto com a problemática na vida real e muitos deles vivem na pele muito, mas muito, piores experiências do que as que possas descrever. A única coisa a ter em conta é o modo como se abordam essas temáticas pois, embora todas elas sejam válidas, a forma como as expomos deve adequar-se à idade dos nossos protagonistas e, sobretudo, dos nossos leitores.
    E isto vem a propósito de quê? Na verdade, podia vir por vários motivos, desde o banir de clássicos um pouco por todo o mundo (um dia destes discutimos isso com mais calma) até o facto de actualmente um autor já não poder escrever o que quer, sem maldade ou intenções menos boas sem ser acusado (muitas vezes de forma descabida) de ser um ser humano menos bom e menos correcto que escreve apenas para magoar os outros. Mas… não é nada disso. A reflexão vem a propósito de um YA que li há uns tempos numa leitura conjunta e que me deixou desiludida, frustrada e chocada.

    Devo dizer que o grupo de leitura era constituído maioritariamente por raparigas, todas bem mais novas que eu, algumas com apenas 15 ou 16 anos, e que todas adoraram o livro a ponto de partirem, logo de seguida, para a leitura do 2º volume da trilogia. Este facto também me chocou bastante e deixou-me a pensar, mas já lá vamos…

    Ora, o livro em causa tem, para os que se preocupam com isso, uma cotação 3.96 no Goodreads e os que se lhe seguem têm notas mais altas, todos têm recebido críticas bastante positivas dos leitores. A coisa começa com uma personagem principal que é para lá de pão sem sal, totalmente dependente dos outros, facilmente manipulável  e incapaz de pensar ou tomar decisões por si mesma. Logo aqui começa mal mas pensei que ia haver algum tipo de evolução, acontece que não. Aliás, mal nos apercebemos que a miúda não tem vontade própria, aparece um pai autoritário e abusador que quando uma filha faz algo que lhe desagrada castiga, com requintes de malvadez, a irmã e não a própria. What?!? Não tenho nenhum problema em ler sobre castigo físico sempre que não seja gratuito e que essa descrição violenta leve a algum lado a nível de reflexão, que nos ensine algo ou que, de algum modo, enriqueça a história. Nada disso aconteceu aqui, era exercício de autoridade e violência sem qualquer justificação que se visse ao longo de toda a narrativa e que culmina num triste episódio de perseguição do pai à sua filha e subsequente entrega da miúda para ser violada. Sim, leram bem, sem mais nem menos o pai persegue a filha e acaba por a entregar, de modo perfeitamente consciente, a um crápula seu amigo para que este a viole. E foi aqui que a minha paciência acabou e eu estourei para depois ficar chocada por ter sido a única a não achar aquilo tudo escabroso. Mais a mais, todos estes episódios são totalmente injustificados e o livro passava lindamente sem eles (não ia ficar muito melhor mas....).  E sim, a miúda lá se safa graças a uma poção mágica mas isso não justifica nem perdoa porque, pelo menos para mim (e pelos vistos só para mim), não é normal nem legitimo um pai oferecer a filha para ser violada e, na vida real, infelizmente, não há poções mágicas que nos salvem numa situação daquelas. 

    Sinceramente, não percebi de todo o que raios quis a autora transmitir com aqueles episódios e  tampouco o que era suposto uma jovem adolescente aprender com os mesmos e é ai que reside o problema. Da literatura, de TODA a literatura, devemos conseguir retirar algum tipo de ensinamentos. A literatura YA tem um papel extremamente importante nesse campo pois é, por natureza, direccionada para um público que está a formar a  sua personalidade, a cimentar as suas convicções e crenças e o facto de não haver temas tabu não isenta o autor de certas responsabilidades.

Fiquei chocada e triste com a maneira como as temáticas foram ali despejadas mas mais ainda por não ter havido muito quem contestasse, quem achasse que, mesmo a nível literário e como mero exercício intelectual, nada daquilo fazia sentido e era minimamente normal. Antes pelo contrário, foi aceite ou, em alguns casos, passou ao lado, despercebido e disfarçado no meio de um romance de cordel de 5ª categoria. Foi isso que mais me magoou e mais me fez pensar, se não nos indignamos quando vemos violência e violação gratuitas na literatura,  como se espera que haja empatia para nos insurgirmos contra este tipo de situações na vida real? Alguma daquelas raparigas que leu comigo ficou tão chocada como eu e teve vergonha de dizer? Ou acham normal ter pais autoritários e abusadores? As jovens de hoje, contrariamente ao que eu pensava, acham legítimo submeter-se à vontade de outrém sem estrebuchar?


    Enfim, não sei bem onde queria chegar com isto, foi um desabafo sobre um tema que me anda a incomodar. Bem sei que cada um lê o que quer, que os livros educam mas que em casa há trabalho que tem que ser feito por quem tem essa responsabilidade, que todos temos problemas a sério e que devemos saber relativizar, que na literatura há espaço para tudo (até para o mais escabroso) mas… Os livros não são “só livros” e não contam “só histórias” e mais do que ser incompreensível que um autor YA trate temas delicados como se nada fosse, dói-me que os jovens leiam e não questionem, não se insurjam. A literatura sempre foi incómoda por tornar insubmissos os que lêem, por nos fazer questionar e contestar mas este caso mostrou-me que ou os valores estão a mudar, ou há muito quem leia sem ler.


Podem deixar a vossa opinião na caixa de comentários, por favor, porque gostava realmente de saber a vossa opinião sobre o tema e de discutir isto com alguém e... desculpem qualquer coisinha (sobretudo se a exposição da coisa foi um bocado atabalhoada ou confusa).


terça-feira, 13 de abril de 2021

The Invisible Life of Addie LaRue

 Título: The Invisible Life of Addie LaRue
Autor: V.E. Schwab
Edição: Titan Books para Illumicrate (ed. especial)
Nº de páginas: 454

Sinopse: 

FRANCE, 1714
A desperate woman makes a desperate deal in the dark - a bargain to live forever but be remembered by none.
So begins the invisible life of Addie LaRue, shadow muse to artists throughout history, forgotten friend, confidante and lover, slipping away with the morning light. Addie passes through lives, desperate only to leave a trace of herself. Until the day she walks back into a small bookshop in Manhattan and meets Henry, who remembers her.
After 300 years Addie's life is restarting, but the devil never plays fair. As Henry and Addie's lives start to intertwine, they must face the consequences of the decisions they've made and the prices to be paid.
The Invisible Life of Addie LaRue is a dazzling adventure across centuries and continents, across history and art, about a young woman learning how far she will go to leave her mark on the world.



Opinião:

Se já foram ver a página de instagram, sabem que tenho sentimentos muito âmbiguos em relação a este livro. Por um lado adorei, é das narrativas mais bonitas que tive o prazer de ler em muito, muito tempo. Por outro lado, custou-me horrores a terminar. Encalhei pouco depois das 200 páginas lidas e vi-me e desejei-me para conseguir ultrapassar a coisa. Vou tentar explicar-me o melhor que puder para que possam perceber como me sinto.

Com este livro a autora atingiu um nível de qualidade de escrita que nunca lhe tinha visto. A história é narrada de forma poética e suave e muito, muito doce apesar de muitos dos temas abordados não serem propriamente fofinhos. Esta escrita é envolvente e conquista-nos. Faz-nos laços profundos com a personagem da Addie porque acredito que descreve momentos e sentimentos vividos pela grande maioria dos leitores, toda a gente se vai poder identificar com aquilo que ela vive e sentem em algum momento do livro. Além disso, as coisas descritas com palavras bonitas tocam-nos mais. E foi assim que a V. E. Schwab me conquistou logo nas primeiras páginas, com uma linguagem maravilhosamente doce e poética. 

Onde é que está então o problema? Bem, para começar, este estilo, a voz do livro, imprime um ritmo mais lento à narrativa. Não me incomodou o facto de ser bastante descritiva porque a descrição era boa, o que me incomodou foi a lentidão, a falta de acção. 
Normalmente esta autora escreve histórias com mais aventura e acção e a permissa tinha tudo para envolver algo do género afinal são 300 anos de História com episódios super importantes e artistas (com quem supostamente a Addie se cruza e os quais influencia) super interessantes em todas as áreas. Pensei que ia assistir ao envolvimento dela com esses artistas ou em momentos históricos marcantes mas a autora não optou por essa via. Talvez tenha sido esta expectativa, juntamente com todo o sururu que se criou em torno do livro, mesmo antes de este ter saído, que me "estragou" um pouco a experiência. Porque a verdade é que nem eu sei porque não posso dar 5 estrelas ou porque me custou tanto a ler uma vez que é um livro verdadeiramente bonito e que me tocou, que me deixou a pensar e me fez encarar certas coisas de um modo diferente. 

Basicamente seguimos a Addie pelas ruas do mundo - gosto do trocadilho, o nome dela é LaRue, "a rua" em francês, e é precisamente nas ruas que ela passa a viver depois do acordo que faz, tornando-se parte delas -, sempre lá mas sem ser notada e vemos como sofre por ser esquecida a toda a hora e por não ter amor na sua vida. Todos buscamos amor e há-o de vários tipos e este também é um livro sobre isso, o amor do pai que faz tudo pela sua filha, o amor de uma amizade simples e descomplicado, o amor de alguém que nos prepara para a vida mas nos tenta proteger dela e, na personagem de Estele o amor por si próprio levado às últimas consequências. E agora pergunto, porque raios é que a Addie se centra apenas em encontrar um amor romântico e não apenas amor? Achei este aspecto um pouco redutor.

Nas últimas 150 páginas, mais coisa menos coisa, a magia voltou e a autora conseguiu não só reconquistar-me como pôr-me a chorar como uma Madalena. Afinal, este é um livro sobre coisas tão simples como a constatação de que a vida é sempre um momento mais curta do que queriamos e de que, além de todos termos que ir quando chega a nossa hora, todos perdemos aqueles que amamos pelo caminho. É um livro sobre perda, sobre a necessidade que o ser humano tem de deixar a sua marca no mundo e nos outros, de não desparecer na poeira da História; é um livro sobre a necessidade de não deixar nada por dizer e a importância de dizermos exactamente o que desejamos. 

Resumindo, não partam para esta leitura a pensar nos demais livros da autora porque não é nada como os restantes. Aliás, não é a normal narrativa de fantasia. Vão sem expectativas e sabendo que o ritmo é lento mas que a escrita é tão maravilhosa que acabará por vos conquistar rapidamente e, sobretudo, vão sabendo que vos vai tocar, que em algum momento não vão poder fugir às vossas emoções e vão derramar umas lágrimas não apenas pelos personagens mas, sobretudo, por vós e pelas vossas vidas. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Vampires Never Get Old - Tales with a Fresh Bite

Título: Vampires Never Get Old: Tales with a Fresh Bite
Antologia compilada por: Zoraida Córdova & Natalie C. Parker
Autores: Zoraida Córdova, Natalie C. Parker, Samira Ahmed, Dhonielle Clayton, Tessa Gratton, Heidi Heilig, Julie Murphy, Mark Oshiro, Rebecca Roanhorse, Laura Ruby, Kayla Whaley e V. E. Schwab
Edição: Imprint
Nº de páginas: 320

Sinopse: "In this delicious new collection edited by Zoraida Córdova and Natalie C. Parker, you'll find stories about the lurking vampires of social media, the rebellious vampires hungry for more that just blood, the eager vampires coming out - and going out for their first kill - and other bold, breathtaking, dangerous, dreamy, eerie, iconic, powerful creatures of the night.
Welcome to the revolution of the vampire - and a revolution on the page.
Vampires Never Get Old includes stories by authors both bestselling and acclaimed."


Opinião:

Como diz Neil Gaiman, o bom de um livro de contos é que se não gostas de um deles sabes que passadas umas páginas surgirá um que te apaixona, e isso tanto é uma das coisas mais maravilhosas neste tipo de livros.  Avaliar um livro de contos nunca é fácil, sobretudo por causa da diversidade de estilos e abordagens ao tema mas neste livro há uma constante além do tema, a sensação com que o leitor fica de que a história náo está completa, que lhe foram servidas apenas as migalhas de um bolo muito maior. No caso de alguns autores, como V. E. Schwab, já foi confirmado pelos próprios que é assim, que esta sensação não é infundada. Acontece é que, em alguns casos, essa realidade é umito evidente e leva a que os contos não tenham um príncipio, meio e fim. 
Mas não é tudo mau. Há muitas coisas boas, há contos de que gostei bastante e há, acima de tudo, um sem número de abordagens fora do comum ao vampirismo. Na verdade, não há nenhum típico vampiro neste livro e os temas abordados vão desde bullying a eutanásia passando por LGBTQ+, problemas alimentares e de peso, perda de entes queridos, escravatura, doença mental e, obviamente, muitos homicídios e mortes. Gostei destas novas abordagens, os vampiros já não são apenas os badass e as jeitosas sedutoras e passam a ser personagens mais complexas, que não deixam para trás os seus problemas, medos ou complexos só porque a vida se lhes foi.

Vamos então a uma pequena análise conto a conto...

Seven Nights for Dying by Tessa Gratton -
Não vou mentir, estava super entusiasmada, afinal era o primeiro conto do livro, e... perdi logo a vontade! Só dois ou três dias depois é que voltei a pegar no livro para ler o segundo conto. 
Não percebi muito bem onde é que a autora queria chegar com isto... Gostei bastante da ideia de a "vitima" poder escolher se de fcato quer ser transformada e ter sete dias para chegar a uma decisão final, para fazer um balanço da sua vida e ponderar bem a sua escolha. É uma abordagem interessante e fora do comum mas que não torna, por si só, a história numa boa história. Acabei por não perceber muito bem porque é que a personagem queria ser transformada. A personagem principal é pan ou bissexual, tem problemas com excesso de peso, e está extremamente zangada com a mãe por ela ter morrido. É um contexto dificil mas não senti que a autora me tivesse conseguido transmitir os reais sentimentos do personagem, não criei qualquer tipo de relação empática com ela, e, talvez por isso, não me pareceu que a moça soubesse o que andava a fazer da vida! 


The Boys from Blood River by Rebecca Roanhorse - ⭐⭐⭐
Gostei bastante deste conto. Tem umas vibes mais dark e a autora conseguiu fazer-me sentir aquele arrepiozinho pela espinha. Além disso, consegui identificar-me com os personagens e compreender as suas motivações. O personagem principal vive numa cidadezinha daquelas em que todos se conhecem, trabalha num daqueles "cafés" de beira de estrada típicos da América e a única pessoa que é minimamente simpática com ele é a colega de trabalho. Toda a cidade, sobretudo os colegas de escola, lhe inferniza a vida por ser nativo-americano, gay e pobre. Como se não lhe bastasse, a mãe está em fase terminal e a vida dele é cada vez pior e mais difícil. Onde entram os vampiros? Ahah... Numa espécie de lenda urbana ligada a uma música. Quem a ouve e quem a canta acaba por se encontrar com os "Rapazes de Blood River". Estão a ver por onde a coisa vai, não? Pois é, o nosso personagem vai aprender da pior maneira que tudo tem o seu preço.
Ponto negativo: é um conto. Fiquei com muita vontade de saber mais sobre os "Rapazes" e sobre o destino do personagem principal.


Senior Year Sucks by Julie Murphy - ⭐
Juro, nunca gostei da Buffy e o raio desta história é demasiado colado à série. Coisa boa, é um conto pequeno e passou depressa. 
Enfim, há uma caçadora de vampiros adolescente que, apesar de ter algum excesso de peso é cheerleader e tem o nada aamericano nome de Jolene (a sério?! cortem-me os pulsos...). Depois de um jogo numa outra cidade, no regresso a casa, a boa da Jolene acaba a conhecer uma vampira que. tal como ela, só quer aproveitar o último ano de secundário e gozar a coisa descansadinha. E no final, adivinhem lá!! Pois é, do nada, sem motivo aparente e só porque sim, as duas embrulham-se e acabam a curtir no carro (não vou comentar). 
Além de ter achado tudo muito Buffy e de não me ter conseguido identificar em nada com nenhum dos personagens, acho que a autora não conseguiu encontrar a voz do personagem. Para mim, era claro que era um adulto a tentar lembrar-se, ou a tentar imaginar, como era a vida daquela adolescente.


The Boy and The Bell by Heidi Heiling - ⭐⭐ ⭐
Gostei muito das vibes deste conto e da atmosfera que a autora conseguiu transmitir. A acção tem lugar num cemitério na Inglaterra victoriana, aquela época em que grassavam não só os roubos de cadáveres mas também os enterros de gente viva. Quem tinha dinheiro usava tudo para evitar ambas as situações e muitos já devem ter ouvido falar do dispositivo que ligava o pulso do "morto" a um sino de modo a evitar que a pessoa fosse enterrada viva e morresse desse mal.
O personagem principal é um rapaz trans que sonha com ser médico mas que sempre sofreu de discriminação por parte de todos, primeiro porque nasceu rapariga (o que lhe cortava as possíbilidades de vida e os sonhos), depois porque não tem dinheiro ou ligações e que se dedica a roubar cadáveres para poder estudar e comer. Numa noite em que se dedica a essa actividade, ouve um sino que toca insistentemente numa  campa mais à frente...
Não dou mais estrelas porque fiquei com a sensação de que este conto era um excerto de algo maior - e que bom seria, porque adorava conhecer melhor os personagens, saber mais sobre as suas motivações e conhecer os seus destinos - mas gostei bastante.


A Guidebook for the Newly Sired Desi Vampire by Samira Ahmed - ⭐⭐
Escrito, de modo imaginiativo, na forma de um panfleto destinado aos novos vampiros, este foi outro dos contos que perdeu por me transmitir a sensação de que era um trecho de algo maior.
O cenário é a India onde a comunidade vampírica vive no meio dos humanos, cumprindo algumas regras básicas, tendo acesso a um apoio especial de outros vampriros e das novas tecnologias (apps de encontros vampíricos, por exemplo) que lhes facilitam esta convivência. 
A personagem principal é uma presença confusa e sem nome, um jovem que foi mortido e transformado contra a sua vontade por um turista britânico. Esta situação leva a um dissertar sobre colonização, atitudes racistas e prepotentes por parte dos antigos colonizadores que se estendem até aos dias de hoje e falta de respeito para com os povos nativos e as suas culturas. São temas relevantes e devem ser inntroduzidos e discutidos mas achei que  podia ter sido feito de outra forma.


In Kind by Kayla Whaley - ⭐⭐⭐⭐
Este conto mexeu comigo. A sério!
A história é contada através de supostos artigos de jornal e, depois, por Grace Williams, uma adolescente que sofre de uma doença degenerativa e incapacitante que a faz ser completamente dependente do pai que acha que a vida naquele sofrimento não é vida.  No primeiro artigo de jornal ficamos a saber que o pai de Grace se entregou à polícia, confessando que lhe tinha administrado uma dose letal de morfina e que se tinha tentado desfazer do corpo. De um modo estranho, o corpo desaparece antes que o homem consiga levar a bom porto os seus intentos. E aqui começa a coisa...
Começa a história propriamente dita, porque a filha afinal não estava tão morta como ele pensava e, após ser salva e transformada, está tão zangada que só pensa em vingar-se. E começa a nossa cabeça a tentar lidar com as várias emoções que os personagens transmitem e também com as emoções do leitor que se vê no lugar tanto do pai como da filha e luta para perceber como se comportaria face a uma realidade destas.
É uma história muito emotiva e que nos faz pensar mas é, acima de tudo uma história sobre nunca sabermos como os outros se sentem, sobre pessoas que sofrem  (não apenas ou exclusivamente no plano físico) mas que não precisam de ser consertados porque se aceitam e estão em paz com a sua realidade, felizes com o seu "eu" e com o que a vida lhes dá. Pode não ser uma vida perfeita mas é a sua vida e vale a pena ser vivida tanto como outra qualquer. Neste ponto, adorei o facto de não haver curas mágicas, de a Grace continuar a depender da sua cadeira de rodas, continuar a ter um corpo que, às vezes, a trai e manter a sua vontade de viver.


Vampires Never Say Die by Zoraida Córdova e Natalie C. Parker -  ⭐
Não gostei mesmo nada desta história. Na Nova York dos nossos dias, uma jovem adolescente mantém uma  amizade virtual - via Instagram - com alguém que o leitor (e apenas o leitor) sabe que é uma vampira com 200 anos. Cheia de boa vontade e boas intenções, a jovem decide organizar uma festa de aniversário para a sua amiga, convidando todos amigos de instagram desta. Ora, já estáo a ver o rumo que a coisa leva, com certeza. Uma sala cheia de vampiros sedentos e uma tótó super inocente mesmo a pedir para ser o cordeiro sacrificado!
Enfim, achei a miúda super naive, de uma maneira que me irritou solenemente. Além disso, a parte de haver alguém do outro lado que a manipula, que não é quem diz ser foi algo que mexeu comigo. Eu sei que acontece todos os dias e não apenas aos adolescentes, há imensa gente enganada online. O que me incomodou foi o facto desse personagem fazer isso sem qualquer tipo de problema de consciência, sem pensar nas consequências para aquela jovem. Acho que me incomodou pelo facto de ter percebido que é mesmo assim, que quem faz estas coisas nem pensa duas vezes no outro, só pensa no seu umbigo e isso é muito, muito triste.


Bestiary by Laura Ruby - ⭐⭐ (2,5)
A acção decorre num futuro que interpreto como próximo, em volta de uma vampira recém transformada que, não tendo um lugar a que chamar casa, acaba por "viver" num zoo que se debate com a falta de água.
Tenho sentimentos ambíguos em relação a este conto. Por um lado, os temas abordados são interessantes  e, com algum desenvolvimento, poderiam levar a algo muito, muito bom. Além disso, a relação que a personagem principal estabelece com os animais, a capacidade que tem de realmente comunicar com eles, leva-nos, face aos restantes acontecimentos, a pensar quem serão neste mundo as verdadeiras bestas. Com mais tempo (se não fosse um conto, portanto) a personagem principal podia revelar-se espectacular e acredito que os leitores se iriam ideintificar imenso com ela, seria um dos pontos fortes e centrais de uma boa distopia! Contudo, não há tempo. Mais uma vez, fica a sensação de pressa. Esta história tem princípio, o meio não tem o desenvolvimento que merecia e o fim foi alinhavado ali assim às três pancadas. A sério, se a autora pegar nisto como base para uma noveleta ou até algo maior, apontem o meu nome na lista de quem vai querer ler. Quero saber realmente como foi transformada, o que vai acontecer aos animais do zoo, o que vai acontecer aos cromos capitalistas, quero descobrir mais sobre a colega dela e as vidas de ambas.... Como está, soube a pouco e, por isso, não dou 3 estrelas.


Mirrors, Windows & Selfies by Mark Oshiro - ⭐⭐ (2,5)
Esta é a história de Cisco, um vampiro adolescente e latino-americano que nunca fez nada mais na vida senão fugir de um lado para o outro com uns pais para lá de protectores que não o deixam comunicar com ninguém e, misteriosamente, nem sequer o deixam ver-se ao espelho ou tirar selfies.
Sentindo-se muito só e isolado, a questão da sua aparência física torna-se quase uma obsessão - há algo de errado com a cara dele? Como é que ele é? Porque é que não o deixam conhecer o seu reflexo? - e é neste contexto que se decide a começar um blog no qual coloca os seus receios e pensamentos. É através deste blog que conhecemos toda a história e gostei deste aspecto, o autor não se limitou à narrativa corrida e, a meu ver, resultou bem.
Dei por mim a querer mesmo saber o que ia acontecer, como é que ele ia conseguir levar a cabo a tarefa de conhecer a sua própria imagem, a dizer-lhe "mas foge, não sejas parvo"... Gostei bastante mas não vi respostas nenhumas às minhas questões, não percebi porque é que os país do Cisco acham que têm que fugir, porque não o deixam ver-se ao espelho, afinal como é que ele é, se há mais como ele onde estão, como vivem e para onde vão? No final, não sei nada disto. Porquê? Mais uma vez, este conto parece, desta vez, o início de uma história maior. Tem tudo para ser uma õptima história mas falha enquanto conto.


The House of Black Sapphires by Dhonielle Clayton - ⭐⭐⭐⭐
Esta foi, sem dúvida, a minha história favorita de todo o livro. Adorei. Dos personagens, ao mistério que os envolve, ao ambiente e atmosfera... lindo! O fim não foi tão satisfatório, foi até algo abrupto mas este é outro conto que, espero sinceramente, possa ser aproveitado para algo maior.  Se soubesse que podia conhecer a história completa dava-lhe 5 estrelas sem exitar.
A narrativa apoia-se nos muitos de Nova Orleães e no folclore e voodoo haitianos. Pelas mãos de uma família de vampiras, somos levados a uma New Orleans alternativa embora muito semelhante à nossa. O aspecto mais especial e interessante está na familia em si, mulheres negras e super poderosas que gerem um boticário e que se vão mudando consoante a necessidade. Por motivos não muito claros, acabam por retornar à sua terra natal onde o seu poder e a sua condição de Eternas não é segredo. Contudo, o perigo espreita e a sua existência pode não ser assim tão eterna uma vez que aquela cidade é também o lar dos únicos seres capazes de as aniquilar, os Shadow Baron.


First Kill by V. E. Schwab - ⭐⭐⭐ 
Bem, estou à espera de poder ver o todo desta história uma vez que a autora já confirmou que isto foi apenas a introdução. E é precisamente por isso que a história perde, o conto limita-se a seguir a vida das duas protagonistas durante 2 dias. Ambas são lésbicas mas uma é vampira (condição de família) e a outra é caçadora de seres sobrenaturais como todos os membros da sua família. Gostei bastante das personagens e do entorno mas acabou por saber a muito pouco, sendo um desenrolar muito lento para um conto e o leitor percebe claramente que aquele é o início de algo maior.





Como podem ver, a constante neste livro foi  um sentimento de que ali faltava algo e que a história não era apenas aquilo. É realmente uma pena porque, ao ver os nomes dos autores, esperava muito mais desta antologia. Gostei da diversidade de temas e do modo pouco habitual como os vampiros são retratados mas... soube a pouco. No geral, são duas estrelas para o livro no seu todo.
Tenho que fazer uma pesquisa para tentar perceber se, de facto, mais autores confirmam que este é o ponto de partida para algo mais. Se assim for, vou  querer ler alguns livros no futuro.