domingo, 19 de março de 2023




"Feyre, uma caçadora de dezanove anos, mata um lobo na floresta. Como consequência, uma criatura monstruosa aparece em busca de vingança e arrasta-a para uma terra encantada conhecida apenas através de lendas. Ali, porém, a sua prisão é um palácio magnífico e o seu carcereiro não é um monstro. Tamlin, o Grande Senhor da Corte da Primavera, trata-a como uma princesa.

Durante a convivência forçada com ele, os sentimentos de Feyre passam de fria hostilidade a uma paixão que será vivida apesar das advertências. Mas há um mal antigo a corroer aquele reino e a espalhar-se para o dos mortais. Feyre terá de arranjar forma de o deter ou Tamlin e o seu mundo estarão condenados para sempre."


ATENÇÃO, ESTA REVIEW TEM UM SPOILER (devidamente assinalado).


Confesso que estou com uma dificuldade extrema para escrever esta review, quem tem estado mais atento aos stories e destaques do instagram sabe que dei 2,5⭐ a este que é um dos títulos mais populares da actualidade. Antes de me matarem, deixem-me explicar. 
Foi uma leitura entretida? Nem sempre mas, sim. 
Era o que eu precisava? Parece que sim, ajudou-me a sair de uma espécie de ressaca literária.
É um bom livro? Não.

Comecemos pelo início, é assim que as coisas devem começar sempre. Tinham-me vendido o livro como um retelling da história pela qual tenho um carinho especial, "A Bela e o Monstro", e vai-se a ver o que encontro é uma miúda que faz de tudo para cuidar e alimentar um pai apático e imprestável e duas irmãs intragáveis e mal agradecidas. O que é que isto vos faz lembrar? A Cinderela. Pois.
 
Em "A Bela e o Monstro" partimos da premissa de que existe uma maldição. O Príncipe é uma besta insensível e com um feitiozinho de treta e, para ver se aprende as regras do bom viver, ganha um frontispício a condizer com o carácter que demonstrou. Já a Bela, vai em socorro do pai, oferece-se para ficar no seu lugar, e acaba por ter que conseguir ver para lá do que é evidente e além das aparências. Talvez tenha sido esta a maior falha de Sarah J. Maas, só para lá do meio do livro é que o leitor fica a saber que há uma maldição. Antes disso, tudo é confuso e há coisas que acabam por não fazer sentido.

Outra coisa que não resultou para mim foram os personagens. Não consegui criar uma relação mínima de empatia com nenhum. A Freyre por um lado, cuida da família e demonstra ter a força que falta ao pai e às irmãs, por outro lado é tão impulsiva e tão tontinha que só me apetecia abaná-la. Miúda, se estás numa terra estranha, com seres estranhos e onde, supostamente, não és bem-vinda, fazes o que te dizem e, de caminho calas a boca e ficas sossegada. Mas não, parecia as crianças que quando lhes dizemos "não faças isto" vão a correr fazê-lo sem pensar nas consequências. Já o suposto monstro e seu amigo nunca me pareceram monstruosos. Ambos bonitos, altos e espadaúdos (verdade que não lhes vemos a cara mas, do que se vê ou percebe, nada magoa a vista) e, um mais que o outro, cheios de paciência com a menina que apaparicam a toda a hora. Isto não colou de todo.
A personagem melhor conseguida e que ainda contribuiu para a minha alegria foi a rainha malvada, Amarantha, que com as suas maquinações e intriga política lá me conseguiu despertar o interesse. Se a autora se tivesse dedicado menos a romances de pacotilha e mais a explorar a parte da intriga política e a história do território, a coisa teria muito mais interesse. Ainda assim, falhou quando este personagem tão mau e complexo faz um enigma totalmente raso, com zero complexidade e permite a aproximação de Rhysand. A rainha má tinha que ser sempre má, sempre esperta e estar sempre 3 passos à frente.

Outra coisa que me mexeu com o sistema nervoso foram as relações "amorosas" neste livro. Sempre ouvi dizer que era uma autora feminista e defensora das mulheres e depois todas as relações são super abusivas e, pior, a vitima gosta! What??? SPOILER (A sério, não me venham dizer que drogar uma pessoa todas as noites e obrigá-la a dançar praticamente nua em frente a um bando de rebarbados que, se a oportunidade se apresentar, a violariam é coisa que não faz mal nenhum e até se aceita porque é para a salvar. Sorry, mas, independentemente do resultado, isto é abuso.) FIM DO SPOILER
Enfim, já percebi que no segundo volume a coisa tem ali umas reviravoltas mas, neste livro, houve coisas que me caíram muito mal.

Devo acrescentar que achei o fim muito "felizes para sempre" e talvez a história merecesse uma coisa mais hardcore, ou sou eu que gostava que toda a narrativa tivesse ido outra direcção.

Por último, não posso deixar de referir que achei a escrita demasiado simples, insípida até, sem qualquer profundidade e nada que a caracterize por si só excepto o facto de ser demasiado repetitiva.

Talvez acabe por ler o segundo volume, afinal de contas li isto super rápido e até fiquei curiosa para saber como é que a autora chega à situação que já sei que tem lugar nesse livro mas, ainda assim, não estou com pressa. A seu tempo, pode ser que aconteça.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A Deadly Education - The Scholomance #1

Scholomance, mais que uma escola de magia, é uma obra de engenharia e poder que paira no vácuo e onde cada segundo é uma luta pela sobrevivência. Ali não há professores, a escola distribui as disciplinas e os trabalhos seguindo regras próprias que ninguém conhece e poucos conseguem sequer adivinhar; o perigo vem de, literalmente, todo o lado - a própria escola quer aniquilar todos os que nela residem; as alianças fazem-se em favor da raça ou da proveniência de cada um ou, caso não se faça parte de uma família pertencente a um enclave importante, em função das nossas capacidades mágicas e de sobrevivência. A cereja no topo do bolo? Para conseguir concluir os estudos com sucesso, temos que conseguir sair da escola travando uma luta desigual com um sem número de monstros e criaturas esfomeadas para quem não passamos de um belo petisco.

O que vos parece? Quase o mesmo que o meu secundário. E, tal como me aconteceu naquela altura, os alunos estão ali porque não têm outra hipótese. No caso deles, fugir ao momento em que a escola os teletransporta para o seu interior, lutar por ficar em casa, é uma opção mais mortal que enfrentar o destino na escola.

Confesso que nunca tinha lido Naomi Novik (shame on me...) e, inicialmente, o que me fez continuar foi a voz da personagem principal. El, é irónica e sarcástica de uma maneira deliciosa e que me prendeu. Fez-me lembrar alguém de quem gosto muito. Depois, mais que as aventuras e os mistérios dos personagens foi a escola em si que me fez virar as páginas. Querer perceber o funcionamento de tudo, a engenharia e a filosofia da escola, o sistema de magia, o porquê de certas alianças, de alguns comportamentos, a magia de cada um e como funciona, de onde saem os monstros... É, de facto um "mundo" complexo em que a imaginação da autora comanda completamente e onde nada é realmente o que parece. 

O único ponto negativo e que realmente me travava o ritmo eram as explicações. São todas feitas pela El, já que o livro é narrado na primeira pessoa e são necessárias, é um facto mas... às vezes não era ali, não era aquele o momento. Estamos a meio de uma cena de acção, uma fuga, o que eu quero saber é por onde vão os personagens, se simplesmente fogem ou se usam algum truque ou subterfugio não é, de todo, o momento para me explicarem que personagem A tem daddy issues e que, por isso, talvez tenha havido uma certa dose de injustiça há 100 páginas atrás. Enfim, há explicações que têm que ser feitas para que possamos conhecer melhor s personagens e todo o entorno mas nem sempre são feitas no momento mais pertinente.

Enquanto lia, fui-me deparando com comentários e opiniões que acusavam a autora de racismo e de xenofobia e afins por, por exemplo, a El se referir a alguns aluno como "Arabic Speaker" ou "Chinese speaker" ou por dizer que um determinado personagem tinha tido que cortar o cabelo rente como todos os outros porque uns monstrinhos quaisquer (não me lembro o nome, eles são mesmo muitos, um verdadeiro exército!!) terem feito um ninho nas tranças afro dela como o faziam sempre que alguém tinha o cabelo um bocadinho mais comprido. Ora... a autora desculpou-se pelo episódio das tranças, eu não o teria feito. Ficou bem claro para mim que as ditas criaturas se aninhavam em qualquer peruca. Por outro lado, os estudantes são muitas vezes tratados por "falante" de lingua x ou y não por uma questão de raça (a personagem principal sofre até, em alguns momentos da sua vida de racismo por ser meio inglesa e meio indiana) mas porque, no meio daquela selvajaria e daquela luta insana pela sobrevivência, por estranho que pareça, falar línguas é um elemento crucial. Das línguas que falamos depende o tipo e qualidade de feitiços (incluindo defensivos) a que podemos deitar a mão. Falar árabe não melhor nem pior que falar chinês, hindu ou sânscrito, é só diferente e pode fazer a diferença entre conseguir sair da escola ou morrer lá dentro.

Tinha sido muito mais simples para a autora jogar pelo seguro e dar-nos uma escola inglesa ou francesa ou onde fosse, cheia de alunos ocidentais  ou com uma educação ocidental e que fossem todos muito iguais. A autora arriscou. The Scholomance é a única escola de magia do mundo, para ali vão todos os adolescentes deste planeta com a mínima centelha de magia no sangue. É um caldeirão de culturas, algumas em choque (inclusive no mesmo personagem), de egos, preconceitos e onde cada minuto e cada capacidade intelectual contam para nos livrar da morte. Scholomance é assim e é assim que é descrita.
Muito sinceramente, não vi nada que tenha considerado racista ou propositadamente ofensivo a qualquer nível e acho a maioria dos comentários despropositados. Aliás, dúvido que muitos dos que criticam tenham, de facto, lido o livro - com olhos de ler e sem saltar frases, parágrafos ou capítulos. Parece-me mais um daqueles casos em que é fácil ir com a corrente e, claro, em qualquer circunstância da vida, se queres muito encontrar uma coisa vais vê-la mesmo que ela não esteja lá. 

O melhor mesmo é lerem e julgarem por vós. A mim foi um livro que me fez pensar em alguns temas importantes e até profundos, que me manteve entretida e que me despertou a curiosidade para saber como vai aquele leque de personagens desenvencilhar-se para sair da escola com vida (sinceramente, espero que a autora seja realista e mate uns quantos pelo caminho. Mas ainda a acusam de racismo por ter morto o B e não o C...). Quando sair o próximo vou ler com certeza.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

    Uma das regras mais básicas e que qualquer escritor de YA conhece é que não há assuntos tabu, ou temáticas proibidas. Os livros fazem-nos pensar, mostram-nos mundos que nos fazem pensar o mundo, oferecem-nos a capacidade de analisar criticamente e são fonte inesgotável de conhecimento, não devem, de todo, ser  locais assépticos e ideologicamente higiénicos mesmo que estejamos a falar de YA.
    Tradicionalmente, pensamos que a literatura YA não deve abordar certos temas mas, na verdade, depois gostamos quando as discussões e as chamadas de atenção estão lá porque, não raro, os livros são as únicas fontes de informação que temos, a única forma de nos identificarmos e termos algumas referências em determinadas áreas. Quantos jovens não têm ninguém com quem desabafar os seus medos e problemas senão com os livros?  É por isso que em YA não há temas proibidos. Por muito mau que seja aquilo que queres abordar, 80% dos teus leitores já tiveram contacto com a problemática na vida real e muitos deles vivem na pele muito, mas muito, piores experiências do que as que possas descrever. A única coisa a ter em conta é o modo como se abordam essas temáticas pois, embora todas elas sejam válidas, a forma como as expomos deve adequar-se à idade dos nossos protagonistas e, sobretudo, dos nossos leitores.
    E isto vem a propósito de quê? Na verdade, podia vir por vários motivos, desde o banir de clássicos um pouco por todo o mundo (um dia destes discutimos isso com mais calma) até o facto de actualmente um autor já não poder escrever o que quer, sem maldade ou intenções menos boas sem ser acusado (muitas vezes de forma descabida) de ser um ser humano menos bom e menos correcto que escreve apenas para magoar os outros. Mas… não é nada disso. A reflexão vem a propósito de um YA que li há uns tempos numa leitura conjunta e que me deixou desiludida, frustrada e chocada.

    Devo dizer que o grupo de leitura era constituído maioritariamente por raparigas, todas bem mais novas que eu, algumas com apenas 15 ou 16 anos, e que todas adoraram o livro a ponto de partirem, logo de seguida, para a leitura do 2º volume da trilogia. Este facto também me chocou bastante e deixou-me a pensar, mas já lá vamos…

    Ora, o livro em causa tem, para os que se preocupam com isso, uma cotação 3.96 no Goodreads e os que se lhe seguem têm notas mais altas, todos têm recebido críticas bastante positivas dos leitores. A coisa começa com uma personagem principal que é para lá de pão sem sal, totalmente dependente dos outros, facilmente manipulável  e incapaz de pensar ou tomar decisões por si mesma. Logo aqui começa mal mas pensei que ia haver algum tipo de evolução, acontece que não. Aliás, mal nos apercebemos que a miúda não tem vontade própria, aparece um pai autoritário e abusador que quando uma filha faz algo que lhe desagrada castiga, com requintes de malvadez, a irmã e não a própria. What?!? Não tenho nenhum problema em ler sobre castigo físico sempre que não seja gratuito e que essa descrição violenta leve a algum lado a nível de reflexão, que nos ensine algo ou que, de algum modo, enriqueça a história. Nada disso aconteceu aqui, era exercício de autoridade e violência sem qualquer justificação que se visse ao longo de toda a narrativa e que culmina num triste episódio de perseguição do pai à sua filha e subsequente entrega da miúda para ser violada. Sim, leram bem, sem mais nem menos o pai persegue a filha e acaba por a entregar, de modo perfeitamente consciente, a um crápula seu amigo para que este a viole. E foi aqui que a minha paciência acabou e eu estourei para depois ficar chocada por ter sido a única a não achar aquilo tudo escabroso. Mais a mais, todos estes episódios são totalmente injustificados e o livro passava lindamente sem eles (não ia ficar muito melhor mas....).  E sim, a miúda lá se safa graças a uma poção mágica mas isso não justifica nem perdoa porque, pelo menos para mim (e pelos vistos só para mim), não é normal nem legitimo um pai oferecer a filha para ser violada e, na vida real, infelizmente, não há poções mágicas que nos salvem numa situação daquelas. 

    Sinceramente, não percebi de todo o que raios quis a autora transmitir com aqueles episódios e  tampouco o que era suposto uma jovem adolescente aprender com os mesmos e é ai que reside o problema. Da literatura, de TODA a literatura, devemos conseguir retirar algum tipo de ensinamentos. A literatura YA tem um papel extremamente importante nesse campo pois é, por natureza, direccionada para um público que está a formar a  sua personalidade, a cimentar as suas convicções e crenças e o facto de não haver temas tabu não isenta o autor de certas responsabilidades.

Fiquei chocada e triste com a maneira como as temáticas foram ali despejadas mas mais ainda por não ter havido muito quem contestasse, quem achasse que, mesmo a nível literário e como mero exercício intelectual, nada daquilo fazia sentido e era minimamente normal. Antes pelo contrário, foi aceite ou, em alguns casos, passou ao lado, despercebido e disfarçado no meio de um romance de cordel de 5ª categoria. Foi isso que mais me magoou e mais me fez pensar, se não nos indignamos quando vemos violência e violação gratuitas na literatura,  como se espera que haja empatia para nos insurgirmos contra este tipo de situações na vida real? Alguma daquelas raparigas que leu comigo ficou tão chocada como eu e teve vergonha de dizer? Ou acham normal ter pais autoritários e abusadores? As jovens de hoje, contrariamente ao que eu pensava, acham legítimo submeter-se à vontade de outrém sem estrebuchar?


    Enfim, não sei bem onde queria chegar com isto, foi um desabafo sobre um tema que me anda a incomodar. Bem sei que cada um lê o que quer, que os livros educam mas que em casa há trabalho que tem que ser feito por quem tem essa responsabilidade, que todos temos problemas a sério e que devemos saber relativizar, que na literatura há espaço para tudo (até para o mais escabroso) mas… Os livros não são “só livros” e não contam “só histórias” e mais do que ser incompreensível que um autor YA trate temas delicados como se nada fosse, dói-me que os jovens leiam e não questionem, não se insurjam. A literatura sempre foi incómoda por tornar insubmissos os que lêem, por nos fazer questionar e contestar mas este caso mostrou-me que ou os valores estão a mudar, ou há muito quem leia sem ler.


Podem deixar a vossa opinião na caixa de comentários, por favor, porque gostava realmente de saber a vossa opinião sobre o tema e de discutir isto com alguém e... desculpem qualquer coisinha (sobretudo se a exposição da coisa foi um bocado atabalhoada ou confusa).


terça-feira, 13 de abril de 2021

The Invisible Life of Addie LaRue

 Título: The Invisible Life of Addie LaRue
Autor: V.E. Schwab
Edição: Titan Books para Illumicrate (ed. especial)
Nº de páginas: 454

Sinopse: 

FRANCE, 1714
A desperate woman makes a desperate deal in the dark - a bargain to live forever but be remembered by none.
So begins the invisible life of Addie LaRue, shadow muse to artists throughout history, forgotten friend, confidante and lover, slipping away with the morning light. Addie passes through lives, desperate only to leave a trace of herself. Until the day she walks back into a small bookshop in Manhattan and meets Henry, who remembers her.
After 300 years Addie's life is restarting, but the devil never plays fair. As Henry and Addie's lives start to intertwine, they must face the consequences of the decisions they've made and the prices to be paid.
The Invisible Life of Addie LaRue is a dazzling adventure across centuries and continents, across history and art, about a young woman learning how far she will go to leave her mark on the world.



Opinião:

Se já foram ver a página de instagram, sabem que tenho sentimentos muito âmbiguos em relação a este livro. Por um lado adorei, é das narrativas mais bonitas que tive o prazer de ler em muito, muito tempo. Por outro lado, custou-me horrores a terminar. Encalhei pouco depois das 200 páginas lidas e vi-me e desejei-me para conseguir ultrapassar a coisa. Vou tentar explicar-me o melhor que puder para que possam perceber como me sinto.

Com este livro a autora atingiu um nível de qualidade de escrita que nunca lhe tinha visto. A história é narrada de forma poética e suave e muito, muito doce apesar de muitos dos temas abordados não serem propriamente fofinhos. Esta escrita é envolvente e conquista-nos. Faz-nos laços profundos com a personagem da Addie porque acredito que descreve momentos e sentimentos vividos pela grande maioria dos leitores, toda a gente se vai poder identificar com aquilo que ela vive e sentem em algum momento do livro. Além disso, as coisas descritas com palavras bonitas tocam-nos mais. E foi assim que a V. E. Schwab me conquistou logo nas primeiras páginas, com uma linguagem maravilhosamente doce e poética. 

Onde é que está então o problema? Bem, para começar, este estilo, a voz do livro, imprime um ritmo mais lento à narrativa. Não me incomodou o facto de ser bastante descritiva porque a descrição era boa, o que me incomodou foi a lentidão, a falta de acção. 
Normalmente esta autora escreve histórias com mais aventura e acção e a permissa tinha tudo para envolver algo do género afinal são 300 anos de História com episódios super importantes e artistas (com quem supostamente a Addie se cruza e os quais influencia) super interessantes em todas as áreas. Pensei que ia assistir ao envolvimento dela com esses artistas ou em momentos históricos marcantes mas a autora não optou por essa via. Talvez tenha sido esta expectativa, juntamente com todo o sururu que se criou em torno do livro, mesmo antes de este ter saído, que me "estragou" um pouco a experiência. Porque a verdade é que nem eu sei porque não posso dar 5 estrelas ou porque me custou tanto a ler uma vez que é um livro verdadeiramente bonito e que me tocou, que me deixou a pensar e me fez encarar certas coisas de um modo diferente. 

Basicamente seguimos a Addie pelas ruas do mundo - gosto do trocadilho, o nome dela é LaRue, "a rua" em francês, e é precisamente nas ruas que ela passa a viver depois do acordo que faz, tornando-se parte delas -, sempre lá mas sem ser notada e vemos como sofre por ser esquecida a toda a hora e por não ter amor na sua vida. Todos buscamos amor e há-o de vários tipos e este também é um livro sobre isso, o amor do pai que faz tudo pela sua filha, o amor de uma amizade simples e descomplicado, o amor de alguém que nos prepara para a vida mas nos tenta proteger dela e, na personagem de Estele o amor por si próprio levado às últimas consequências. E agora pergunto, porque raios é que a Addie se centra apenas em encontrar um amor romântico e não apenas amor? Achei este aspecto um pouco redutor.

Nas últimas 150 páginas, mais coisa menos coisa, a magia voltou e a autora conseguiu não só reconquistar-me como pôr-me a chorar como uma Madalena. Afinal, este é um livro sobre coisas tão simples como a constatação de que a vida é sempre um momento mais curta do que queriamos e de que, além de todos termos que ir quando chega a nossa hora, todos perdemos aqueles que amamos pelo caminho. É um livro sobre perda, sobre a necessidade que o ser humano tem de deixar a sua marca no mundo e nos outros, de não desparecer na poeira da História; é um livro sobre a necessidade de não deixar nada por dizer e a importância de dizermos exactamente o que desejamos. 

Resumindo, não partam para esta leitura a pensar nos demais livros da autora porque não é nada como os restantes. Aliás, não é a normal narrativa de fantasia. Vão sem expectativas e sabendo que o ritmo é lento mas que a escrita é tão maravilhosa que acabará por vos conquistar rapidamente e, sobretudo, vão sabendo que vos vai tocar, que em algum momento não vão poder fugir às vossas emoções e vão derramar umas lágrimas não apenas pelos personagens mas, sobretudo, por vós e pelas vossas vidas. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Vampires Never Get Old - Tales with a Fresh Bite

Título: Vampires Never Get Old: Tales with a Fresh Bite
Antologia compilada por: Zoraida Córdova & Natalie C. Parker
Autores: Zoraida Córdova, Natalie C. Parker, Samira Ahmed, Dhonielle Clayton, Tessa Gratton, Heidi Heilig, Julie Murphy, Mark Oshiro, Rebecca Roanhorse, Laura Ruby, Kayla Whaley e V. E. Schwab
Edição: Imprint
Nº de páginas: 320

Sinopse: "In this delicious new collection edited by Zoraida Córdova and Natalie C. Parker, you'll find stories about the lurking vampires of social media, the rebellious vampires hungry for more that just blood, the eager vampires coming out - and going out for their first kill - and other bold, breathtaking, dangerous, dreamy, eerie, iconic, powerful creatures of the night.
Welcome to the revolution of the vampire - and a revolution on the page.
Vampires Never Get Old includes stories by authors both bestselling and acclaimed."


Opinião:

Como diz Neil Gaiman, o bom de um livro de contos é que se não gostas de um deles sabes que passadas umas páginas surgirá um que te apaixona, e isso tanto é uma das coisas mais maravilhosas neste tipo de livros.  Avaliar um livro de contos nunca é fácil, sobretudo por causa da diversidade de estilos e abordagens ao tema mas neste livro há uma constante além do tema, a sensação com que o leitor fica de que a história náo está completa, que lhe foram servidas apenas as migalhas de um bolo muito maior. No caso de alguns autores, como V. E. Schwab, já foi confirmado pelos próprios que é assim, que esta sensação não é infundada. Acontece é que, em alguns casos, essa realidade é umito evidente e leva a que os contos não tenham um príncipio, meio e fim. 
Mas não é tudo mau. Há muitas coisas boas, há contos de que gostei bastante e há, acima de tudo, um sem número de abordagens fora do comum ao vampirismo. Na verdade, não há nenhum típico vampiro neste livro e os temas abordados vão desde bullying a eutanásia passando por LGBTQ+, problemas alimentares e de peso, perda de entes queridos, escravatura, doença mental e, obviamente, muitos homicídios e mortes. Gostei destas novas abordagens, os vampiros já não são apenas os badass e as jeitosas sedutoras e passam a ser personagens mais complexas, que não deixam para trás os seus problemas, medos ou complexos só porque a vida se lhes foi.

Vamos então a uma pequena análise conto a conto...

Seven Nights for Dying by Tessa Gratton -
Não vou mentir, estava super entusiasmada, afinal era o primeiro conto do livro, e... perdi logo a vontade! Só dois ou três dias depois é que voltei a pegar no livro para ler o segundo conto. 
Não percebi muito bem onde é que a autora queria chegar com isto... Gostei bastante da ideia de a "vitima" poder escolher se de fcato quer ser transformada e ter sete dias para chegar a uma decisão final, para fazer um balanço da sua vida e ponderar bem a sua escolha. É uma abordagem interessante e fora do comum mas que não torna, por si só, a história numa boa história. Acabei por não perceber muito bem porque é que a personagem queria ser transformada. A personagem principal é pan ou bissexual, tem problemas com excesso de peso, e está extremamente zangada com a mãe por ela ter morrido. É um contexto dificil mas não senti que a autora me tivesse conseguido transmitir os reais sentimentos do personagem, não criei qualquer tipo de relação empática com ela, e, talvez por isso, não me pareceu que a moça soubesse o que andava a fazer da vida! 


The Boys from Blood River by Rebecca Roanhorse - ⭐⭐⭐
Gostei bastante deste conto. Tem umas vibes mais dark e a autora conseguiu fazer-me sentir aquele arrepiozinho pela espinha. Além disso, consegui identificar-me com os personagens e compreender as suas motivações. O personagem principal vive numa cidadezinha daquelas em que todos se conhecem, trabalha num daqueles "cafés" de beira de estrada típicos da América e a única pessoa que é minimamente simpática com ele é a colega de trabalho. Toda a cidade, sobretudo os colegas de escola, lhe inferniza a vida por ser nativo-americano, gay e pobre. Como se não lhe bastasse, a mãe está em fase terminal e a vida dele é cada vez pior e mais difícil. Onde entram os vampiros? Ahah... Numa espécie de lenda urbana ligada a uma música. Quem a ouve e quem a canta acaba por se encontrar com os "Rapazes de Blood River". Estão a ver por onde a coisa vai, não? Pois é, o nosso personagem vai aprender da pior maneira que tudo tem o seu preço.
Ponto negativo: é um conto. Fiquei com muita vontade de saber mais sobre os "Rapazes" e sobre o destino do personagem principal.


Senior Year Sucks by Julie Murphy - ⭐
Juro, nunca gostei da Buffy e o raio desta história é demasiado colado à série. Coisa boa, é um conto pequeno e passou depressa. 
Enfim, há uma caçadora de vampiros adolescente que, apesar de ter algum excesso de peso é cheerleader e tem o nada aamericano nome de Jolene (a sério?! cortem-me os pulsos...). Depois de um jogo numa outra cidade, no regresso a casa, a boa da Jolene acaba a conhecer uma vampira que. tal como ela, só quer aproveitar o último ano de secundário e gozar a coisa descansadinha. E no final, adivinhem lá!! Pois é, do nada, sem motivo aparente e só porque sim, as duas embrulham-se e acabam a curtir no carro (não vou comentar). 
Além de ter achado tudo muito Buffy e de não me ter conseguido identificar em nada com nenhum dos personagens, acho que a autora não conseguiu encontrar a voz do personagem. Para mim, era claro que era um adulto a tentar lembrar-se, ou a tentar imaginar, como era a vida daquela adolescente.


The Boy and The Bell by Heidi Heiling - ⭐⭐ ⭐
Gostei muito das vibes deste conto e da atmosfera que a autora conseguiu transmitir. A acção tem lugar num cemitério na Inglaterra victoriana, aquela época em que grassavam não só os roubos de cadáveres mas também os enterros de gente viva. Quem tinha dinheiro usava tudo para evitar ambas as situações e muitos já devem ter ouvido falar do dispositivo que ligava o pulso do "morto" a um sino de modo a evitar que a pessoa fosse enterrada viva e morresse desse mal.
O personagem principal é um rapaz trans que sonha com ser médico mas que sempre sofreu de discriminação por parte de todos, primeiro porque nasceu rapariga (o que lhe cortava as possíbilidades de vida e os sonhos), depois porque não tem dinheiro ou ligações e que se dedica a roubar cadáveres para poder estudar e comer. Numa noite em que se dedica a essa actividade, ouve um sino que toca insistentemente numa  campa mais à frente...
Não dou mais estrelas porque fiquei com a sensação de que este conto era um excerto de algo maior - e que bom seria, porque adorava conhecer melhor os personagens, saber mais sobre as suas motivações e conhecer os seus destinos - mas gostei bastante.


A Guidebook for the Newly Sired Desi Vampire by Samira Ahmed - ⭐⭐
Escrito, de modo imaginiativo, na forma de um panfleto destinado aos novos vampiros, este foi outro dos contos que perdeu por me transmitir a sensação de que era um trecho de algo maior.
O cenário é a India onde a comunidade vampírica vive no meio dos humanos, cumprindo algumas regras básicas, tendo acesso a um apoio especial de outros vampriros e das novas tecnologias (apps de encontros vampíricos, por exemplo) que lhes facilitam esta convivência. 
A personagem principal é uma presença confusa e sem nome, um jovem que foi mortido e transformado contra a sua vontade por um turista britânico. Esta situação leva a um dissertar sobre colonização, atitudes racistas e prepotentes por parte dos antigos colonizadores que se estendem até aos dias de hoje e falta de respeito para com os povos nativos e as suas culturas. São temas relevantes e devem ser inntroduzidos e discutidos mas achei que  podia ter sido feito de outra forma.


In Kind by Kayla Whaley - ⭐⭐⭐⭐
Este conto mexeu comigo. A sério!
A história é contada através de supostos artigos de jornal e, depois, por Grace Williams, uma adolescente que sofre de uma doença degenerativa e incapacitante que a faz ser completamente dependente do pai que acha que a vida naquele sofrimento não é vida.  No primeiro artigo de jornal ficamos a saber que o pai de Grace se entregou à polícia, confessando que lhe tinha administrado uma dose letal de morfina e que se tinha tentado desfazer do corpo. De um modo estranho, o corpo desaparece antes que o homem consiga levar a bom porto os seus intentos. E aqui começa a coisa...
Começa a história propriamente dita, porque a filha afinal não estava tão morta como ele pensava e, após ser salva e transformada, está tão zangada que só pensa em vingar-se. E começa a nossa cabeça a tentar lidar com as várias emoções que os personagens transmitem e também com as emoções do leitor que se vê no lugar tanto do pai como da filha e luta para perceber como se comportaria face a uma realidade destas.
É uma história muito emotiva e que nos faz pensar mas é, acima de tudo uma história sobre nunca sabermos como os outros se sentem, sobre pessoas que sofrem  (não apenas ou exclusivamente no plano físico) mas que não precisam de ser consertados porque se aceitam e estão em paz com a sua realidade, felizes com o seu "eu" e com o que a vida lhes dá. Pode não ser uma vida perfeita mas é a sua vida e vale a pena ser vivida tanto como outra qualquer. Neste ponto, adorei o facto de não haver curas mágicas, de a Grace continuar a depender da sua cadeira de rodas, continuar a ter um corpo que, às vezes, a trai e manter a sua vontade de viver.


Vampires Never Say Die by Zoraida Córdova e Natalie C. Parker -  ⭐
Não gostei mesmo nada desta história. Na Nova York dos nossos dias, uma jovem adolescente mantém uma  amizade virtual - via Instagram - com alguém que o leitor (e apenas o leitor) sabe que é uma vampira com 200 anos. Cheia de boa vontade e boas intenções, a jovem decide organizar uma festa de aniversário para a sua amiga, convidando todos amigos de instagram desta. Ora, já estáo a ver o rumo que a coisa leva, com certeza. Uma sala cheia de vampiros sedentos e uma tótó super inocente mesmo a pedir para ser o cordeiro sacrificado!
Enfim, achei a miúda super naive, de uma maneira que me irritou solenemente. Além disso, a parte de haver alguém do outro lado que a manipula, que não é quem diz ser foi algo que mexeu comigo. Eu sei que acontece todos os dias e não apenas aos adolescentes, há imensa gente enganada online. O que me incomodou foi o facto desse personagem fazer isso sem qualquer tipo de problema de consciência, sem pensar nas consequências para aquela jovem. Acho que me incomodou pelo facto de ter percebido que é mesmo assim, que quem faz estas coisas nem pensa duas vezes no outro, só pensa no seu umbigo e isso é muito, muito triste.


Bestiary by Laura Ruby - ⭐⭐ (2,5)
A acção decorre num futuro que interpreto como próximo, em volta de uma vampira recém transformada que, não tendo um lugar a que chamar casa, acaba por "viver" num zoo que se debate com a falta de água.
Tenho sentimentos ambíguos em relação a este conto. Por um lado, os temas abordados são interessantes  e, com algum desenvolvimento, poderiam levar a algo muito, muito bom. Além disso, a relação que a personagem principal estabelece com os animais, a capacidade que tem de realmente comunicar com eles, leva-nos, face aos restantes acontecimentos, a pensar quem serão neste mundo as verdadeiras bestas. Com mais tempo (se não fosse um conto, portanto) a personagem principal podia revelar-se espectacular e acredito que os leitores se iriam ideintificar imenso com ela, seria um dos pontos fortes e centrais de uma boa distopia! Contudo, não há tempo. Mais uma vez, fica a sensação de pressa. Esta história tem princípio, o meio não tem o desenvolvimento que merecia e o fim foi alinhavado ali assim às três pancadas. A sério, se a autora pegar nisto como base para uma noveleta ou até algo maior, apontem o meu nome na lista de quem vai querer ler. Quero saber realmente como foi transformada, o que vai acontecer aos animais do zoo, o que vai acontecer aos cromos capitalistas, quero descobrir mais sobre a colega dela e as vidas de ambas.... Como está, soube a pouco e, por isso, não dou 3 estrelas.


Mirrors, Windows & Selfies by Mark Oshiro - ⭐⭐ (2,5)
Esta é a história de Cisco, um vampiro adolescente e latino-americano que nunca fez nada mais na vida senão fugir de um lado para o outro com uns pais para lá de protectores que não o deixam comunicar com ninguém e, misteriosamente, nem sequer o deixam ver-se ao espelho ou tirar selfies.
Sentindo-se muito só e isolado, a questão da sua aparência física torna-se quase uma obsessão - há algo de errado com a cara dele? Como é que ele é? Porque é que não o deixam conhecer o seu reflexo? - e é neste contexto que se decide a começar um blog no qual coloca os seus receios e pensamentos. É através deste blog que conhecemos toda a história e gostei deste aspecto, o autor não se limitou à narrativa corrida e, a meu ver, resultou bem.
Dei por mim a querer mesmo saber o que ia acontecer, como é que ele ia conseguir levar a cabo a tarefa de conhecer a sua própria imagem, a dizer-lhe "mas foge, não sejas parvo"... Gostei bastante mas não vi respostas nenhumas às minhas questões, não percebi porque é que os país do Cisco acham que têm que fugir, porque não o deixam ver-se ao espelho, afinal como é que ele é, se há mais como ele onde estão, como vivem e para onde vão? No final, não sei nada disto. Porquê? Mais uma vez, este conto parece, desta vez, o início de uma história maior. Tem tudo para ser uma õptima história mas falha enquanto conto.


The House of Black Sapphires by Dhonielle Clayton - ⭐⭐⭐⭐
Esta foi, sem dúvida, a minha história favorita de todo o livro. Adorei. Dos personagens, ao mistério que os envolve, ao ambiente e atmosfera... lindo! O fim não foi tão satisfatório, foi até algo abrupto mas este é outro conto que, espero sinceramente, possa ser aproveitado para algo maior.  Se soubesse que podia conhecer a história completa dava-lhe 5 estrelas sem exitar.
A narrativa apoia-se nos muitos de Nova Orleães e no folclore e voodoo haitianos. Pelas mãos de uma família de vampiras, somos levados a uma New Orleans alternativa embora muito semelhante à nossa. O aspecto mais especial e interessante está na familia em si, mulheres negras e super poderosas que gerem um boticário e que se vão mudando consoante a necessidade. Por motivos não muito claros, acabam por retornar à sua terra natal onde o seu poder e a sua condição de Eternas não é segredo. Contudo, o perigo espreita e a sua existência pode não ser assim tão eterna uma vez que aquela cidade é também o lar dos únicos seres capazes de as aniquilar, os Shadow Baron.


First Kill by V. E. Schwab - ⭐⭐⭐ 
Bem, estou à espera de poder ver o todo desta história uma vez que a autora já confirmou que isto foi apenas a introdução. E é precisamente por isso que a história perde, o conto limita-se a seguir a vida das duas protagonistas durante 2 dias. Ambas são lésbicas mas uma é vampira (condição de família) e a outra é caçadora de seres sobrenaturais como todos os membros da sua família. Gostei bastante das personagens e do entorno mas acabou por saber a muito pouco, sendo um desenrolar muito lento para um conto e o leitor percebe claramente que aquele é o início de algo maior.





Como podem ver, a constante neste livro foi  um sentimento de que ali faltava algo e que a história não era apenas aquilo. É realmente uma pena porque, ao ver os nomes dos autores, esperava muito mais desta antologia. Gostei da diversidade de temas e do modo pouco habitual como os vampiros são retratados mas... soube a pouco. No geral, são duas estrelas para o livro no seu todo.
Tenho que fazer uma pesquisa para tentar perceber se, de facto, mais autores confirmam que este é o ponto de partida para algo mais. Se assim for, vou  querer ler alguns livros no futuro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Faye - Asas de Prata

Título: Faye - Asas de Prata
Autor: Camilla Lackberg
Edição: Suma de Letras
Nº de páginas: 376


Sinopse:  "Depois do grande sucesso internacional de Uma Gaiola de Ouro, chega mais um episódio da história de Faye: traição, redenção e solidariedade feminina num novo drama sobre a vingança.

Graças a um plano refinado e cruel, Faye deixou para trás a traição e as humilhações sofridas com o agora ex-marido Jack e parece ter assumido as regras da sua existência: é uma mulher independente, recontruiu a sua vida num outro país e longe do seu passado, Jack está na prisão e a empresa que Fay fundou, Revenge (Vingança) está crescendo com sucesso.

Mas novos desafios correm o risco de quebrar a serenidade conquistada com muito esforço. De facto, o lançamento da marca Revenge nos Estados Unidos da América desperta uma séria ameaça e Faye é forçada a retornar a Estocolmo"



Ora, por onde é que eu vou começar isto sem ofender ninguém e sem ser linchada pelos fãs? Não sei muito bem... A verdade é que este livro está muito, muito longe daquilo a que a autora me habituou. Eu sei que é preciso evoluir e escrever sobre algo mais que o detective Patrick na sua terrinha mas a qualidade desta nova série deixa muito a desejar. 

Já no livro anterior me tinham saltado à vista umas quantas coisas de que não gostei muito mas neste... esqueçam que a coisa não tem ponta por onde se lhe pegue. O que mais me incomodou foi o facto de este ser vendido como um livro feminista e estar longe de o ser. O feminismo não é o contrário do machismo e o que vemos aqui é só agressão gratuita ao sexo masculino. Dei por mim várias vezes a pensar quem raio teria feito tanto mal à autora para ela vir assim a público destilar ódio e raiva contra todos os homens. E o que é que eu quero dizer com isto? Simples, segundo a narrativa, não há um único homem de jeito neste mundo, nenhum homem ama uma mulher, o que eles têm é segundas intenções sejam elas de natureza sexual, económica ou outra. Já as mulheres, queremos ser amadas, é verdade, mas vemos os homens ou como uns brinquedinhos sexuais ou como um bando de rebarbados que nos querem saltar para a cueca (são as duas únicas opções apresentadas). Ora, esta visão do mundo, desculpem, não é feminista. É só uma visão deturpada e com marcas de ressentimento. A sério que não percebi isto.

Toda esta visão do mundo passa para os personagens, obviamente. A maioria são mulheres descritas como independentes, fortes e bem resolvidas mas, a verdade, é que a única que me encaixa na descrição é a Úrsula. Todas as ouotras, incluindo a personagem principal, são mulheres de negócios que se esforçam por passar uma imagem forte mas que só querem um homem. Sim, um desses que elas levam a vida a rebaixar e a pôr de lado. Um comportamento um bocado bipolar e que contribuiu para a irritação extrema que a Faye me causou. Então uma mulher daquelas, supostamente tão forte e resiliente, independente e com segredos enormes, deixa-se enganar assim pelo primeiro badameco que diz que a ama? Uma mulher de negócios como aquela anda entretida a perder tempo com menage a trois, sexo e passeios com o boy em vez de querer, de fcato, saber quem lhe ameaça o negócio?

O que nos leva à trama. Supostamente, o livro seria sobre uma ameaça à Revenge e ela está presente desde o início mas só nas ultimas páginas é que a boa da Faye se lembra que se calhar é mesmo boa ideia deixar-se de namoricos e lutar por aquilo que criou. Hummm.... não me agradou. Além disso, não sei se fui apenas eu mas foi muito simples perceber a jogada toda logo nos primeiros capitulos, quem estava por detrás da ameaça, como o estava a fazer... Percebi tudo e foi frustrante. Mais uma vez, talvez para despistar, a autora esforçou-se demasiado em rebaixar os homens, particularmente o culpado, e foi isso que me mostrou logo quem era. 

Pontos positivos? Até há. Gostei bastante dos capítulos dedicados à infância de Faye e que a autora utiliza para nos mostrar os porquês da personagem. Foram capítulos que me deixaram a pensar nas desgraças que, às vezes, vivem mesmo ao nosso lado, para os sofrimentos silenciosos de tantas crianças. Deixou-me o coração apertado porque, infelizmente, sei bem que estas coisas acontecem. Ainda assim, devo dizer que não me encaixou muito bem a leveza com que a autora recorre ao homícidio sempre que há dificuldades.

Outro ponto positivo e que, talvez (só talvez, atenção) me faça ler o próximo volume, é o paragrafo final. Sim senhor, aquelas últimas frases prometem, veremos se a autora consegue fazer melhor num próximo volume. Se assim não for, só volto a ler quando escrever  de novo sobre o Patrick ou algo mais na mesma linha.


2/5

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Postcrossing, uma caixa de correio feliz ou viajar sem sair do lugar

 Sou pessoa que não consegue estar parada, não consegue dedicar a totalidade do seu tempo a uma única actividade, sobretudo o tempo livre. Sou inconformada, insatisfeita e tenho, por natureza, uma mente irrequieta. Alguns diriam que isso é condição que advém dos astros, que os nativos de gémeos somos assim mesmo. Talvez... Na verdade, depois de aprender a viver em paz com esta falta de quietude que muitas vezes me leva a abandonar projectos e passatempos (atenção, não quer dizer que deixe de gostar das coisas, simplesmente surgem outras mais interessantes) consigo ver que há nela coisas boas. Estou sempre a descobrir algo novo, a aprender coisas novas, a desenvolver capacidades diferentes. Conclusão, vou-me descobrindo a mim mesma.

E que raios tem isso que ver com uma caixa de correio feliz? Muito! Foi por causa desta minha busca constante por coisas novas que, seguindo a minha paixão por escrever cartas e pelo chamado snailmail, há uns anos, descobri o Postcrossing e deixei de ter uma caixa de correio cinzentona, com um conteúdo corriqueiro quase exclusivamente constituido por contas para pagar, para passar a ter uma caixa de correio feliz e colorida!

O Postcrossing é um projecto de troca de correspondência criado em 2005 por Paulo Magalhães (sim, por um português) e que hoje tem 801,889 utilizadores activos. O conceito é simples, receber e enviar postais de e para todo o mundo. E a coisa é muito simples. Registamo-nos no site, criamos o nosso perfil e podemos começar a enviar postais. Inicialmente, podemos enviar até 5 postais de uma vez e o número vai aumentando à medida que vamos atingindo determinadas fasquias. 



Para enviar um postal pedimos ao sistema que nos disponibilize uma morada (que será enviada posteriormente para o nosso mail). O sistema vai mostrar-nos o perfil e morada de outro utilizador e também o ID do postal. Quando escrevermos o nosso postal devemos incluir nele esse ID para que a pessoa que o recebe possa acusar essa recepção. O facto de o sistema nos mostrar o perfil da pessoa a quem vamos escrever é super importante porque podemos, a partir dali, fazer uma pequena pesquisa e ficar a saber se, por exemplo, a pessoa está quase a fazer anos (um postal de aniversário é sempre uma alegria), que tipo de postais são apreciados pela pessoa em causa, se gosta de receber postais nas quadras festivas (ou se, pelo contrário, não gosta de natal, por exemplo), se os postais feitos à mão podem ser uma opção... Enfim, há um sem número de informações úteis que podemos conseguir e que também damos aos outros utilizadores através do perfil.

A maioria dos postcrossers  tem esse cuidado de pesquisa e gosta de enviar algo que agrade porque, regra basilar, gosta que lhe seja feito o mesmo. Para um exemplo concreto deixo a foto dos meus postais da Inga Paltser. Adoro estas corujinhas e refiro-o no meu perfil mas só se encontram na Europa de Leste. Conclusão, há muita gente que ao ver a informação tem o cuidado de, se tiver um postal destes disponivel, me enviar uma. Até já me aconteceu receber um envelope com um postal e um iman exactamente igual. Sim, porque há muitos utilizadores amorosos que não se limitam a enviar o postal. Há quem "engrace" com o nosso perfil e envie, chá, moedas, imans, folhinhas (dessas tipo post-it) coloridas...



E o que é que se escreve no postal? O que nós quisermos. Normalmente, introduzem-se umas palavrinhas na nossa lingua (com a tradução para inglês entre parentisis, pois então) e depois é deixar fluir. Há quem fale da sua vida, há quem fale sobre a imagem do postal, há quem conte curiosidades sobre o seu país e cultura, quem envie receitas de culinária... Vale tudo desde que não seja uma ofensa para quem recebe.

Quando recebemos um postal, devemos ir registá-lo na plataforma recorrendo ao seu ID. Só quando o postal é registado é que a morada fica livre para poder voltar a enviar e receber. Podemos ou não enviar uma mensagem a agradecer. Eu faço-o sempre. Além de ser de bom tom e revelar boa educação, também gosto que me agradeçam e digam duas ou três palavras quando recebem um postal meu.



Um dado a reter e ter em conta é que não vamos receber um postal da pessoa a quem enviámos um. Isso pode acontecer um dia mas o intuito não é termos resposta ao nosso postal. Por isso mesmo, há uma opção nos perfis que é o "direct Swap" e podemos estar ou não abertos à ideia. Quando vemos um perfil de alguém que nos parece porreiro, ou quando recebemos um postal de alguém que nos agradou, podemos ver se está disponivel para "direct swap" e enviar-lhe uma mensagem através da página oficial. Se a pessoa quiser dá-nos a sua morada e pode, assim, criar-se uma troca de correspondência mais ao jeito dos penpal. Também há quem envie os postais num envelope e inclua a morada ou até quem tenha pequenos autocolantes com a morada e que cola nos postais. 

Posso dizer-vos que já fiz boas amizades com "direct swaps". Inclusivé, já fui a Praga visitar uma das minhas penpals e já recebi em Portugal penfriends da Rússia, República Checa e Taiwan (ainda não as visitei todas mas... um dia, lá chegaremos). 



Todas estas "viagens de postal na mão" despertaram em mim mais vontade de saber e conhecer e me proporcionaram uma maneira diferente de olhar o mundo, os locais quem visito e até as outras pessoas. Além da possibilidade de conhecer outras pessoas, há mais aliciantes. Ficar a conhecer elementos de culturas diferentes (às vezes, dou por mim a saber coisas da cultura oriental porque alguém as escreveu num postal, por exemplo), descobrir locais novos e despertar a nossa vontade de saber mais sobre eles, receber um postal de um país que nem sabiamos que existe (já me aconteceu) e, claro, ter algo mais que contas para pagar na caixa do correio.  



Resta-me acrescentar que é completamente seguro e ninguém, senão quem vos enviará o postal, tem acesso à vossa morada.

As fotos que vos deixo são de alguns postais que recebi, de alguns selos (é um cuidado que todos temos nos Correios, pedir selos bonitos em vez do autocolante feio que sai do computador, o preço é o mesmo) e da página do Postcrossing. 

Se se sentirem tentados, visitem a página e experimentem embora vos deva avisar que é altamente viciante. Se quiserem mais informações, esclarecimentos ou ideias... deixem comentário ou enviem mensagem que eu respondo com todo o gosto.


Fiquem bem, boas leituras e...

HAPPY POSTCROSSING!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Book Crates ou Caixas Literárias o que são?

 Gostam de ser surpreendidos? Gostam de ler e, como todo o leitor, têm os vossos fandom preferidos? Agrada-vos a ideia de chegar a casa e na caixa do correio haver algo mais que contas para pagar?

Se responderam "sim" a, pelo menos, duas das questões, este post é para vocês. 

Há uns dias, a prpósito do unboxing da minha caixinha da Illumicrate, surgiram algumas questões relativas a estas crates ou caixas, como quiserem chamar-lhe, e achei que era mais simples e prático, inclusive para vocês, se fizesse um post sobre o assunto.

Eu adoro surpresas, adoro prendas, e adoro livros e tudo isto se conjuga maravilhosamente nas "crates" ou caixinhas, como gosto de lhes chamar. Descobri-as há vários anos, andava ainda na faculdade, mas naquela altura não conseguia comprar muitas vezes porque, além de serem caras, essa coisa dos correios para todo o lado e das compras online ainda eram algo a desenvolver (não me julguem, a juventude está no espírito!!). As "crates" que conhecia eram todas americanas e volta e meia ficavam na alfândega (imaginem o pesadelo que era explicar o que lá ia dentro... Não dava!). Hoje, há caixas por todo o lado e de todo o lado o que torna mais difícil a escolha do produto mas mais fácil o receber aquilo que se escolheu.


Mas afinal como é que funciona? E o que é que vem lá dentro?

Ora, é aqui que entra o factor "estudo" aliado ao factor "surpresa". No que respeita ao funcionamento a coisa é simples e comum a quase todas as crates, fazemos uma pequena pesquisa no mercado, através de visitas ao site ou aos perfis nas redes sociais encontramos a que nos agrada mais, fazemos a subscrição e a caixa acabará por nos chegar a casa. Há subscrições únicas, mensais, trimestrais, semestrais e anuais (todas renováveis), basta escolher a que se adequa mais à vossa situação. Depois, algumas destas empresas têm a opção de escolher entre a caixa completa ou apenas o livro. Quem escolhe apensa o livro, obviamente, paga menos e recebe sempre o mesmo livro que vem nas caixas completas.  Hã que referir que, regra geral, são edições únicas com hidden covers, sprayed edges, cartas do autor, às vezes, autografadas... 

Além das caixas normais e regulares, por vezes, há também edições especiais dedicadas a determinado livro. Este ano, por exemplo, comprei uma dedicada apenas a "A Dark Shadow of Magic" da V. E. Schwab e outra a "Daugther of Smoke and Bone" da Laini Taylor (ainda está para chegar... ai, que vontade de ver!!). 

Sugiro que na vossa pesquisa tenham em atenção que empresa tem os títulos que mais vos agradam, quem tem o merchandising que vai mais de encontro aos vossos gostos e quem tem mais vezes artigos dos vossos fandom preferidos. Parece tontice mas são aspectos importantes a ter em conta. Esta era a parte do "estudo".

Vamos à parte da "surpresa". Ainda que as empresas avisem com bastante tempo qual é o tema do próximo mês (sobretudo por causa de quem vai comprando mês a mês) e dêem muitas pistas acerca do livro que acompanhará a crate (é sempre fácil adivinhar se  estivermos minimamente atentos às novidades) nunca, mas nunca, conseguimos adivinhar quais são os artigos que receberemos nem os fandom a que dizem respeito. Eu, pessoalmente, adoro ser surpreendida, não saber de todo o que vou receber. Quando chega a caixa aqui a casa é um bocadinho como se fosse Natal. 

E conhecemos todos os fandom? Gostamos de tudo? Obviamente não. Por um lado, é impossível agradar a todos, por outro é muito difícil haver alguém que conheça todos os universos literários e goste de todos. E esta também é a parte boa da coisa. Por causa de alguns artigos já dei por mim a tentar saber mais sobre determinado fandom e a ler livros novos que adorei.

Já comprei várias crates mas, actualmente, sou bastante fiel a apenas uma delas. Tenho uma subscrição trimestral da Illumicrate (já devem ter visto vários unboxing tanto na página de instagram do blog como na minha página pessoal) e estou muitíssimo satisfeita. As edições são lindas, os pins são brutais (adoro os pins! São o meu artigo preferido, para além do livro. AGora tenho que arranjar onde os pôr...) e o serviço de atenção ao cliente funciona verdadeiramente bem.  

Mas há muitas crates por ai e se é algo que querem conhecer melhor, que querem adquirir, façam o vosso trabalho de pesquisa e escolham uma que vos encha as medidas. Comecem por uma subscrição única e vejam como corre. 

Além disso, estas caixas não são apensa literárias. Há todo um universo de crates. Pensem numa coisa que gostam, doces, vinho, plantas, trabalhos manuais, sabonetes, maquilhagem... não importa o que seja, vai haver uma crate! Se quiserem explorar mais podem visitar o Cratejoy que é uma plataforma que reune imensas originárias de todos os cantos do mundo.

Quanto ao trabalho de pesquisa... acho que é um bocado dificíl deixar aqui uma lista de sites (ia ficar um post montruoso e isto já vai parecendo o testamento de um multimilionário...) de modo que a melhor opção parece-me ser deixar a dita nos destaques da página do instagram. Vou fazer a lista e pode sermpre crescer mediante as empresas que vou conhecendo. Parece-vos bem?

Não sei se vos deixei com o bichinho, se ficaram com dúvidas... Fiquem à vontade para colocar questões que eu cá estarei para vos responder o melhor que souber. Ficaram curiosos e com vontade de experimentar? Já recebem alguma crate? Contem-me tudo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Os Escolhidos

 

Título: Os Escolhidos
Autor: Veronica Roth
Editora: Saída de Emergência
Tradução: Patrícia Xavier
Nº de páginas: 401


Sinopse: Há mais de uma década, cinco adolescentes - Sloane, Matt, Ines, Albie e Esther - foram reunidos por uma agência governamental com base numa profecia que dizia serem eles os Escolhidos que destruiriam O Tenebroso, uma entidade maligna que espalhou o caos e ceifou milhares de vidas. Com o objetivo alcançado, a Humanidade celebrou a vitória. Mas o conflito deixou marcas profundas. Se o mundo seguiu em frente e há uma nova geração que não tem memória da guerra, tal não acontece a Sloane. É impossível para ela esquecer os segredos que a perseguem e O Tenebroso ainda assombra os seus sonhos. Ao contrário dos restantes, Sloane não conseguiu seguir em frente; sente-se à deriva - sem direção, objetivos ou propósito.

Na véspera das celebrações dos Dez Anos de Paz, um novo trauma atinge os Escolhidos: a morte de um deles. E quando se reúnem para o funeral descobrem, para terror de todos, que o reinado d'O Tenebroso nunca terminou verdadeiramente.


Segundo o bookstagram, muitos blogs e até alguns profissionais da área, este é um dos melhores debuts do ano em Adult Fantasy. Para não variar muito, a minha opinião e a da maioria das pessoas diverge um bocado (só um bocadinho mesmo, coisa pouca...) isto porque, para mim, a autora deveria ter estado sossegada e continuar a escrever YA. Ou então, se queria tanto lançar-se em algo direccionado para um público mais adulto devia ter tido mais cuidado e ter feito melhor os trabalhos de casa.


O simples facto de os personagens não serem adolescentes, não faz do livro um livro para adultos. A maneira como a história é narrada, os elementos que são inseridos, as temáticas abordadas e o modo em que essa abordagem é feita, entre tantas outras coisas, tornam ou não a coisa num livro para adultos. E este não me parece que possa ser assim chamado (a não ser que seja para adultos muito pouco exigentes e que não questionam o que leem). Mas, vamos por partes.

Logo na sinopse percebemos que a permissa não é nova nem original mas, vai daí  há imensos livros que obedecem à mesma e são óptimos, isso não quer dizer nada de maneirra que damos uma oportunidade e começamos a conhecer os personagens. Neste caso, hã um grupo de cinco jovens na casa dos 30 que, em tempos, salvaram o mundo de um vilão horrível e maquiavélico mas que hoje têm maneiras diferentes de lidar com a coisa. A maioria deles ficou com stress pós-traumático e tenta ultrapassar os seus problemas recorrendo a drogas e coisas que tais. A que se nos apresenta como personagem principal além de tudo ainda se esconde debaixo de uma camada enorme de má educação que justifica com o querer fugir da fama. Já o sádico vilão, além de ninguém perceber que objectivo o move, tem o ridículo nome de O Tenebroso... esqueçam, não consegui sequer respeitá-lo quanto mais temer que me aparecesse à frente. E a primeira parte do livro é isto. Vamos assistindo ao dia-a-dia destes cinco e vamos tendo uns vislumbres do que aconteceu quando eles eram novos e supostamente salvaram o mundo. O ritmo é lento, não acontece nada e a narrativa na terceira pessoa só serve para ser ainda mais dificil criar algum tipo de empatia com os personagens.

Na segunda parte do livro, a rapaziada apercebe-se que afinal não salvou o mundo coisa nenhuma (afinal, aquilo não era tarefa para entregar a adolescentes) e decidem fazê-lo bem desta vez. A acção começa a ser mais rápida e a história começa a ficar mais interessante. Problema? Vários, na verdade. 
Para começar há uns desenvolvimentos à la The Dark mas, ou houve bastantes cortes ou a autora não tem bagagem suficiente para explicar a teoria dos wormwhole e dos mundos paralelos. Ora, se a narrativa vai assentar numa determinada temática tens que estar bem preparado para a explicar aos leitores de modo a que mesmo quem nunca tenha ouvido falar de semelhante coisa fique com umas luzes mínimas. Não aconteceu. 
Segundo problema, não bastava O Tenebroso que temos um segundo vilão com um nome igualmente ridículo. Esqueçam.... Esqueçam mesmo porque o desenrolar da coisa é caótico. Embora o leitor perceba o que acontece nota-se claramente que houve cortes e há imensas coisas em falta. Não sei porquê e quem decidiu esses cortes mas, claramente, não sabia bem o que estava a fazer. Tira o interesse todo e deixa o leitor meio à deriva.
Para terminar, o terceiro problema (uma desgraça nunca vem só...). Os protagonistas resolvem a situação com recurso a uns artefactos que nunca descobrimos bem o que são ou de onde vieram e, imaginem só, a heroina da coisa não se questiona nem uma única vez quais são as consequências pessoais das suas acções, o que é que os seus actos vão acarretar para a sua própria existência (estes personagens têm a profundidade de uma folha de papel e a sensibilidade de um comboio em descarrilamento, enfim!!).

Resumindo, apesar de ser o volume introdutório a uma trilogia ou saga, deixou muito mas muito a desejar. Introduziu, sim, mas não explicou não esclareceu e senti-me perdida no meio de tanta coisa em falta. Os personagens são planos e é super dificil identificarmo-nos com eles, além de que são uma cambada de egoistas. Não foi uma leitura agradável (na verdade, andei a arrastar e só terminei por pura teimosia). 

2/10

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

El Silencio de la Ciudad Blanca

 

Título: El Silencio de la Ciudad Blanca
Série/ Saga: Trilogia de la Ciudad Blanca (#1)
Autor: Eva Garcia Sáenz de Urturi
Edição: Booket - Planeta de Libros
ISBN: 9788408223160
Nº de páginas: 475 páginas


Sinopse: Tasio Ortiz de Zárate, el brillante arqueólogo condenado por los extraños asesinatos que aterrorizaron la tranquila ciudad de Vitoria hace dos décadas, está a punto de salir de prisión en su primer permiso cuando los crímenes se reanudan de nuevo: en la emblemática Catedral Vieja de Vitoria, una pareja de veinte años aparece desnuda y muerta por picaduras de abeja en la garganta. Poco después, otra pareja de veinticinco años es asesinada en la Casa del Cordón, un conocido edificio medieval.

El joven inspector Unai López de Ayala —alias Kraken—, experto en perfiles criminales, está obsesionado con prevenir los crímenes antes de que ocurran, una tragedia personal aún fresca no le permite encarar el caso como uno más. Sus métodos poco ortodoxos enervan a su jefa, Alba, la subcomisaria con la que mantiene una ambigua relación marcada por los crímenes… El tiempo corre en su contra y la amenaza acecha en cualquier rincón de la ciudad. ¿Quién será el siguiente?

Una novela negra absorbente que se mueve entre la mitología y las leyendas de Álava, la arqueología, los secretos de familia y la psicología criminal. Un noir elegante y complejo que demuestra cómo los errores del pasado pueden influir en el presente.



Regra geral recuso-me a ver um filme sem ler antes o livro (vai daí, tenho montanhas de filmes e séries em atraso que é para aprender a não ser parva) mas esta trilogia foi uma excepção. Vá-se lá saber porquê, houve um acidente e dei por mim num sofá, em boa companhia, a ver a adaptação que a Netfilx fez do primeiro volume e, embora já soubesse de antemão quem era o criminoso, fiquei agarrada ao livro como se não soubesse nada do que se ia passar. O livro é tão melhor que o filme!! (grande novidade, né?? Pois... Ainda por cima a quererem que uma atriz com uns visíveis 55 passasse por alguém de 40. Tem dó ó Netflix!)

Há 20 anos a cidade de Victoria, em Navarra, viu-se aterrorizada por um assassino que agora parece estar de regresso. Não posso contar muito mais sem começar para aqui com spoilers mas posso adiantar que a autora transmite muitíssimo bem essa tensão, o medo, a impotência dos personagens principais face ao desconhecido, o sentimento de injustiça não apenas com as mortes que vão acontecendo (sim, são mesmo muitas mortes) mas também para com os investigadores a quem se exige que fechem o caso, que apanhem o culpado e devolvam a paz à cidade o mais rápido possível. Estes níveis de tensão vão sendo cruzados com um nível alto de curiosidade relativamente à vida pessoal actual e ao passado dos diversos personagens. E muito embora as viagens ao passado possam revelar prematuramente várias pistas relativamente à identidade do assassino, o facto é que este entrosamento está muito bem conseguido. Eu simplesmente adorei conhecer o passado de alguns personagens e até dos pais destes e ter um vislumbre da sociedade Victoriana e espanhola em meados do século passado. Fui mesmo conquistada por esta parte da trama!

Relacionados com estes loops temporais estão também os dramas e segredos, os recalcamentos e os maiores desejos de diversos personagens, tal como as ligações e relações entre eles e que levantam imensas questões. Na sua maioria, são personagens fortes e decididos a seguir em frente, a deixar para trás os desaires do passado e a trabalhar por ser melhores pessoas, mais merecedoras daquilo que desejam e julgam merecer. É bastante fácil criar empatia com grande parte dos personagens mas, tenho que confessar, que adorei o MatuSalem, o avô e o German e que me enervei muitas vezes com o Unai e a Estibaliz e as atitudes deles (e, ainda em cima, são os personagens principais... não me deviam ter irritado tantas vezes!!). Há imensos segredos, frustrações, relacionamentos escondidos, pessoas que pensam que as amizades aguentam tudo ou que tudo se lhes pode sobrepor... Em mais do que uma ocasião fiquei a pensar que, de facto, certas coisas descritas acontecem, são possíveis e que mesmo convivendo diariamente com alguém podemos nunca conhecer a pessoa, os seus segredos e desejos. É a verdade, para todos os nossos relacionamentos, mas em certos aspectos é, mais que um pensamento triste e negro, uma realidade que me mete algum medo. 

Outro elemento que me conquistou (a par das viagens ao passado...lol!) e que está muito presente em toda a trama é o folclore, a mitologia e as tradições daquela região. Victoria e os seus habitantes, são personagens orgulhosos do seu passado e da sua herança cultural e defendem-nos com unhas e dentes e o facto de haver um assassino que usa esses elementos para cometer os seus crimes, que os mancha e suja, deixa uma marca em todos os envolvidos. A grande revelação vai deixar um estigma a pairar em cima de alguns personagens e, se não tivesse visto o filme, tinha-me surpreendido imenso embora, olhando para trás, as pequenas pistas estivessem lá o tempo todo.

Concluindo, se gostam de um bom mistério policial com loops temporais e algum folclore regional à mistura, vão gostar de desvendar estes assassinatos. Eu li na versão original mas está traduzido para português pela Lua de Papel.


Reg

Re