quinta-feira, 20 de abril de 2017

Trilogia Baztán


 Como já devem ter reparado, apesar de estar de volta não tenho tido todo o tempo que queria para me dedicar ao blog e tenho montes de reviews atrasadas. Basicamente foi esse facto que hoje me levou a optar não por um livro mas por uma trilogia completa. Li o primeiro livro no final do ano passado e os restantes já este ano e, muito sinceramente, não sei porque demorei tanto a ler esta trilogia quando há montanhas de tempo tanta gente falava dela. Como sabem, vivo aqui bem pertinho de Espanha e quando chegou ao nosso país já esta trilogia era um sucesso de vendas no país de nuestros hermanos e já eu tinha visto os ditos nas livrarias montes de vezes. Mas... não me apetecia. Não sei porquê mas uma trilogia escrita por uma autora espanhola não me prometia nada de espectacular. Estava enganada.De cada vez que pus a mão em cima de um destes livros devorei-o em 2, 3 dias tal era a forma como a leitura me prendia. Adorei.

A premissa é relativamente simples e comum a tantos outros policiais, Amaia uma detective muito promissora, que estudou em Quântico, luta por se afirmar no meio em que trabalha porque o simples facto de  ser mulher contribui para que muitos a desvalorizem ou se sintam por ela ameaçados. a grande oportunidade de mostrar o que vale surge com o aparecimento de um serial killer no Vale de Baztán, local em que Amaia cresceu. Rapidamente se percebe que a mitologia do vale está fortemente ligada a esta série de homicídios e o conhecimento que a detective tem não só do local e das tradições do mesmo mas também das vitimas vai levá-la a entrar numa estranha espiral de acontecimentos. No meio de tudo isto, o leitor rapidamente consegue compreender que a complicada trama familiar de Amaia e o seu trágico passado estão directamente ligados com os casos que vão sendo apresentados nos três volumes.

 
 O enredo, como devem calcular, é pejado de mistério e de acontecimentos algo estranhos pelos quais Amaia se vai movendo fazendo uso de uma intuição algo sui generis e de métodos nem sempre muito ortodoxos. A mitologia é uma constante e é interessante ver como por vezes é bastante semelhante à mitologia e tradições do norte de Portugal. Encontrei aqui os porquês de alguns hábitos e usos do nordeste transmontano que para mim sempre foram assim "porque sim", coisas que nunca ninguém me soube explicar muito bem de onde vinham mas que têm uma forte raíz na ligação das gentes à natureza envolvente e nas práticas ancestrais de protecção contra bruxas de demónios. Contudo, estes aspectos são mais vincados nos dois primeiros volumes. Acheio-os mais envolventes e cativantes e mesmo a trama polícial acabou por me parecer mais consistente. Estando, obviamente, todos ligados por um fio condutor que nem sempre é muito claro, a conclusão não consegue ter a força das narrativas que a precedem. As pistas estão sempre lá e um leitor mais habituado ao género rápido compreende quem está por detrás de tudo embora o como ou porquê nem sempre sejam fáceis de adivinhar. E foi aqui que a conclusão falhou. Toda a trama é rematada em 2 capítulos, se tanto, de forma algo insatisfatória para quem procura todos os porquês que se entrelaçam nesta intrincada tapeçaria. Ficam muitas questões por responder (não posso "spoilar", sorry!!!) e o leitor acaba por ficar com um certo amargo de boca que só é amenizado pela última frase do agente do FBI, Dupree, que deixa antever algum tipo de continuação.

Outro ponto menos positivo e que é comum a todos os volumes são os personagens. Pois é, algo falhou aqui porque achei que alguns dos presonagens secundários são de longe mais fortes, interessantes e complexos que a própria Amaia pese embora esta tenha tudo para ser um personagem fortissimo. Os ingredientes estão todos lá mas a tarefa de nos mostrar essa Amaia falhou e o leitor chega a ter dificuldade em conseguir uma real empatia por ela até nos momentos mais complicados ou mesmo face ao sofrimento da sua infância.

Em todos os volumes a escrita é muito fluída com um ritmo ágil e que prende o leitor, deixando-o sempre desejoso de saber mais, de descobrir o que se segue. Embora não seja grande fã de longas descrições devo dizer que a autora descreve a paisagem do Vale de Baztán e as suas aldeias e vilas de tal modo que, por vezes, dei por mim a pesquisar no google determinado local, ansiosa por ver fotos daquela realidade. Isso é sempre um bom sinal.

Resumindo e concluindo, apesar das falhas na construção e desenvolvimento de alguns personagens e de me ter parecido que a conclusão foi algo atabalhoada (dá a sensação que houve cortes na revisão e que foram deixadas de fora coisas que podiam ser importantes), o ritmo e o mistério conseguiram cativar-me completamente. Ainda que com falhas, adorei a trilogia e recomendo-a.