terça-feira, 16 de novembro de 2010

Queda dos Gigantes

Já há umas semanas que terminei de ler A Queda dos Gigantes e devo dizer que gostei tanto que já encomendei outros livros do autor no site da editora. Este autor tem algo que nos cativa, os seus personagens ganham vida de um modo que tem tanto de misterioso como de maravilhoso, não deixando nenhum leitor indiferente. Conquistou-me e agora estou aqui ansiosamente à espera de uma oportunidade para ler mais da sua obra.
Quando publiquei a minha 1ª opinião referi que, acima de tudo, este é um livro sobre pessoas e a sua luta diária pelos seus ideais e por uma vida melhor. Mantenho a minha opinião. Este é um livro sobre as pessoas, sobre o modo como as diferentes pessoas podem ver a mesma realidade de modos dispares, sobre o modo como a educação, a classe social e tantos outros factores podem condicionar o pensamento e, consequentemente, as acções de um ser humano. Continuo a pensar que os personagens e o a forma como o autor consegue relacionar todos os personagens entre si, bem como a sua capacidade de nos fazer ver as coisas de vários pontos de vista nunca deixando que a narrativa se torne monótona, são os pontos mais fortes deste livro.
A este nível, os destinos que Follett confere aos diferentes personagens no final da Guerra servem para nos mostrar o que aconteceu em diversos países após o conflito - como o caso da Alemanha que, ainda que com escassez de comida e a sua moeda tremendamente desvalorizada, se viu obrigada a pagar a Guerra aos vencedores condenando muitos dos seus habitantes - mas que em alguns casos nos trazem uma espécie de sensação de conforto pelo destino de uns e alguma apreensão (no caso de Lev até um desejo de vingança) em relação a outros.
Ao ler este livro conseguimos rapidamente compreender que o autor se dedicou a muita pesquisa, não apenas a nível histórico mas também por forma a compreender o pensamento e as regras sociais da sociedade da época nos diferentes países focados na narrativa. Como já antes referi, não tenho qualquer problema em admitir que com esta narrativa compreendi coisas que na faculdade me passaram completamente ao lado, lendo as coisas assim conseguimos pensar, antecipar e compreender de forma muito mais clara tudo o que conduziu, não apenas a Europa mas todo o mundo, a este conflito.
Contudo, a este nível tenho as minhas reservas. Talvez por gostar muito de História ou por ter estudado estes episódios bélicos a fundo num passado não muito longínquo, penso que muito ficou por dizer. Claro que num livro deste tipo, e tendo em conta a estrutura optada na própria narrativa e que se trata de um romance, sei que há imensas coisas que teriam que ficar de fora. Ainda assim, não posso deixar de estranhar que não haja menção aos factos ocorridos nas colónias europeias por todo o mundo dado que se verificaram nestes territórios episódios bastante negros. Por outro lado, a minha veia de nacionalista (que por acaso até é mínima) não pode deixar de se insurgir quanto ao retrato do nosso país e pelo fraco envolvimento e importância que "temos" neste livro. Sabendo que a participação de Portugal na I Guerra Mundial mudou drasticamente a realidade política e social do país, conhecendo o profundo impacto que esta decisão política teve a nível interno e ao nível das centenas de famílias que perderam os seus entes queridos às ordens dos ingleses que os comandavam nas linhas da frente, não posso deixar de referir que, no que toca a este livro, Ken Follett nos deixou muito mas muito mal na fotografia. Mas a mesma queixa, talvez até pior, deve poder ser ouvida dos lábios dos leitores de todos os Países Baixos, e outros. Sejamos realistas, é um romance não um tratado histórico do tipo enciclopédico, não se pode ter tudo.
No geral, é um romance espectacular, um óptimo retracto de uma época e uma tocante história de gente, não apenas daqueles personagens inventados, mas de gente que realmente viveu e sofreu aquele negro período histórico. Uma narrativa forte que me prendeu desde os primeiros capítulos e que no fim custa a deixar para trás, levando o leitor a pensar durante dias qual terá sido o futuro que o autor reserva a determinados personagens e aos seus filhos. Que destinos nos revelará no próximo volume da trilogia, O Século?
Recomendadíssimo
8,5/10

4 comentários:

Iceman disse...

Boas!
Dizes: "o fraco envolvimento e importância que "temos" neste livro"
O homem nem refere Portugal..
Estou a 50 páginas de acabar o livro e embora tenha gostado da forma como ele expressou a "dança" política, de resto acho lamentável o enredo tão comercial. Aparentemente quem ganhou a guerra foram os ingleses com a grande influência dos norte-americanos. Vejam só, logo os dois mercados fortes para o autor e onde ele se farta de vender.
Uma vergonha!
Mas reservo para a minha opinião mais considerações a uma obra que é é agradável mas que fica muito aquém da verdade histórica, sobretudo no que concerne à participaçao e influência de outras nações no conflito.

Manuel Cardoso disse...

Eu não gostei assim tanto como a Alice, mas admito que tenha sido afectado pelo facto de (por motivos profissionais) já ter lido muito sobre este assunto.
Acho que o autor foi demasiado ambicioso; o seu sonho terá sido escrever uam espécie de Guerra e Paz do século XX. E não conseguiu, na minha opinião.
Excluido a apreciação valorativa, concordo com tudo o resto que a Alice escreveu; é um livro com elevado interesse didáctico, com as lacunas que referiu e outras...

Gorduchita disse...

Já li vários livros de Follett e devo dizer que gostei de todos. Acho a escrita cativante, as histórias bem contadas.
Gostei especialmente dos Pilares da Terra.
Estou com muita curiosidade em relação a este mas talvez espere que saiam os outros dois para ler tudo de seguida! :)

Alice disse...

Iceman, se calhar no momento em escrevo já acabaste de ler o livro. Lá mesmo no final Portugal é referido. É referido e fica bastante mal na fotografia visto que somos personalizados por um padre bacoco e conservador que dá uma imagem mais que ridícula do país.
Em certos aspectos é como diz o Manuel, o autor foi muito ambicioso. Não quero condenar já à partida porque gostei de muitos aspectos do livro, ainda assim há algumas coisas em que tenho esperança de um maior cuidado por parte do autor em volumes futuros.
A crítica à nossa quase omissão da história podia ser feita por leitores de muitos outros países, é dado demasiado ênfase a uns e há aspectos históricos relevantes que são completamente relegados. Contudo, continuo a dizer que, do ponto de vista do prazer dde leitura e do envolvimento com os personagens e a sua história, gostei do livro. Como romance é óptimo, do ponto de vista histórico...já é outra história :)