sábado, 29 de abril de 2017

Dia Mundial da Dança

Hoje é  Dia Mundial da Dança. Como sabem, a minha irmã é bailarina o que faz deste dia um dia especial. Sirva pois para vos apresentar um dos textos de um jovem autor com um talento imenso e uma sensibilidade sem limites. Ora, deliciem - se então com A Dança de Rui Machado.

A Dança

"A menina dança? Olhe, eu tampouco. Todavia, esta noite decidi viver em regime de excepção. Tome também esse caminho, tenho medo do escuro da noite. Fico-lhe grato pela confiança. Não estranhe a minha felicidade, as minhas noites não conhecem companhias assim. Mão suave a sua. É feita de challis? Não sabe o que é? Sabemos sempre tão pouco sobre nós... Cheguei agora e já a estou a descobrir. Entenda-o como quiser! Tenho muita lábia?! Não diga uma coisa dessas, não lhe mereço. Cheguei agora, lembra-se? Descubra-me também, não me tente adivinhar. Pois saiba que challis é um tecido originário da Índia e em Hindu significa toque agradável. Muito me agrada o seu sorriso, é lindo. Desculpe, nunca lhe disse que trazia novidades. Sou um homem que nunca viu mais do que o óbvio. E que de mais óbvio vejo eu, esta noite, senão a beleza do seu sorriso? Mudemos de assunto, ainda é cedo para desmoronar. Não sei se esta música lhe agrada. Quanto a mim confesso-lhe o meu desinteresse. Qualquer outra me servia desde que me permitisse sentir-lhe o corpo. Esta é lenta, dá tempo para sorver a insensatez do desejo. Perdão, fui ousado, bem sei. Queira perceber que não é fácil ver beber champanhe. Também gosto de o beber. Todo o homem é fascinado pelo bom e o belo. Mais, os pouco bons e nada belos, como eu... Vejo que é uma mulher sofisticada, por certo não me negaria uma taça borbulhante e dourada como a dança que me oferece. Tchim, tchim? Não se ria, ora essa... Não são nada imaginárias as nossas taças! Hum, que maravilha... É um Louis Roederer com toda a certeza. Prove, faça-me a vontade. Isso. Vê? Saboroso... Imaginar é uma provocação dos deuses a nós mesmos. Faz-nos querer e avançar quando é para querer e avançar. Não, não tenho imaginado muito. Há muito que atraquei. Agora deixei-me levar pela sua mão, pelo seu sorriso, pela sua voz, pelo seu corpo. Como paro? Preciso de avançar para parar. Muito sorri a menina... Que nunca lhe a falte a vontade para eu não sufocar na saudade de o ver. Gosto sobretudo do início, quando abre. Tem a Primavera na boca sempre a nascer. Como diz? Devo beijá-la?"

Rui Machado

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Trilogia Baztán


 Como já devem ter reparado, apesar de estar de volta não tenho tido todo o tempo que queria para me dedicar ao blog e tenho montes de reviews atrasadas. Basicamente foi esse facto que hoje me levou a optar não por um livro mas por uma trilogia completa. Li o primeiro livro no final do ano passado e os restantes já este ano e, muito sinceramente, não sei porque demorei tanto a ler esta trilogia quando há montanhas de tempo tanta gente falava dela. Como sabem, vivo aqui bem pertinho de Espanha e quando chegou ao nosso país já esta trilogia era um sucesso de vendas no país de nuestros hermanos e já eu tinha visto os ditos nas livrarias montes de vezes. Mas... não me apetecia. Não sei porquê mas uma trilogia escrita por uma autora espanhola não me prometia nada de espectacular. Estava enganada.De cada vez que pus a mão em cima de um destes livros devorei-o em 2, 3 dias tal era a forma como a leitura me prendia. Adorei.

A premissa é relativamente simples e comum a tantos outros policiais, Amaia uma detective muito promissora, que estudou em Quântico, luta por se afirmar no meio em que trabalha porque o simples facto de  ser mulher contribui para que muitos a desvalorizem ou se sintam por ela ameaçados. a grande oportunidade de mostrar o que vale surge com o aparecimento de um serial killer no Vale de Baztán, local em que Amaia cresceu. Rapidamente se percebe que a mitologia do vale está fortemente ligada a esta série de homicídios e o conhecimento que a detective tem não só do local e das tradições do mesmo mas também das vitimas vai levá-la a entrar numa estranha espiral de acontecimentos. No meio de tudo isto, o leitor rapidamente consegue compreender que a complicada trama familiar de Amaia e o seu trágico passado estão directamente ligados com os casos que vão sendo apresentados nos três volumes.

 
 O enredo, como devem calcular, é pejado de mistério e de acontecimentos algo estranhos pelos quais Amaia se vai movendo fazendo uso de uma intuição algo sui generis e de métodos nem sempre muito ortodoxos. A mitologia é uma constante e é interessante ver como por vezes é bastante semelhante à mitologia e tradições do norte de Portugal. Encontrei aqui os porquês de alguns hábitos e usos do nordeste transmontano que para mim sempre foram assim "porque sim", coisas que nunca ninguém me soube explicar muito bem de onde vinham mas que têm uma forte raíz na ligação das gentes à natureza envolvente e nas práticas ancestrais de protecção contra bruxas de demónios. Contudo, estes aspectos são mais vincados nos dois primeiros volumes. Acheio-os mais envolventes e cativantes e mesmo a trama polícial acabou por me parecer mais consistente. Estando, obviamente, todos ligados por um fio condutor que nem sempre é muito claro, a conclusão não consegue ter a força das narrativas que a precedem. As pistas estão sempre lá e um leitor mais habituado ao género rápido compreende quem está por detrás de tudo embora o como ou porquê nem sempre sejam fáceis de adivinhar. E foi aqui que a conclusão falhou. Toda a trama é rematada em 2 capítulos, se tanto, de forma algo insatisfatória para quem procura todos os porquês que se entrelaçam nesta intrincada tapeçaria. Ficam muitas questões por responder (não posso "spoilar", sorry!!!) e o leitor acaba por ficar com um certo amargo de boca que só é amenizado pela última frase do agente do FBI, Dupree, que deixa antever algum tipo de continuação.

Outro ponto menos positivo e que é comum a todos os volumes são os personagens. Pois é, algo falhou aqui porque achei que alguns dos presonagens secundários são de longe mais fortes, interessantes e complexos que a própria Amaia pese embora esta tenha tudo para ser um personagem fortissimo. Os ingredientes estão todos lá mas a tarefa de nos mostrar essa Amaia falhou e o leitor chega a ter dificuldade em conseguir uma real empatia por ela até nos momentos mais complicados ou mesmo face ao sofrimento da sua infância.

Em todos os volumes a escrita é muito fluída com um ritmo ágil e que prende o leitor, deixando-o sempre desejoso de saber mais, de descobrir o que se segue. Embora não seja grande fã de longas descrições devo dizer que a autora descreve a paisagem do Vale de Baztán e as suas aldeias e vilas de tal modo que, por vezes, dei por mim a pesquisar no google determinado local, ansiosa por ver fotos daquela realidade. Isso é sempre um bom sinal.

Resumindo e concluindo, apesar das falhas na construção e desenvolvimento de alguns personagens e de me ter parecido que a conclusão foi algo atabalhoada (dá a sensação que houve cortes na revisão e que foram deixadas de fora coisas que podiam ser importantes), o ritmo e o mistério conseguiram cativar-me completamente. Ainda que com falhas, adorei a trilogia e recomendo-a.

terça-feira, 14 de março de 2017

Título: Marcado na Pele
Título Original: Marked in Flesh
Série/ Saga: Os outros #4 (The Others #4)
Edição: Saída de Emergência
ISBN: 9789897730245
Nº de páginas: 432 páginas


"Durante séculos, os Outros e os humanos viveram lado a lado numa paz precária. Mas quando a Humanidade ultrapassa os seus limites, os Outros terão de decidir o que estão dispostos a tolerar.
Desde que os Outros se aliaram às Cassandra Sangue, os frágeis mas poderosos profetas humanos que estavam a ser explorados pela sua própria espécie, tudo se transformou na relação entre humanos e os Outros. Alguns como Simon Wolfgard, metamorfo e líder, e a profetisa Meg Corbyn, encaram a nova parceria como vantajosa. Mas nem todos estão convencidos. Um grupo de humanos radicais procura usurpar terras através de uma série de ataques violentos contra os Outros. Mal sabem eles que existem forças mais perigosas e antigas que vampiros e metamorfos e que estão dispostas a fazer o que for necessário para proteger o que lhes pertence…"


Antes de mais devo dizer-vos que, à semelhança do que acontece com todas as outras séries desta autora que já li, adoro esta saga. É ligeiramente diferente daquilo a que estamos habituados nela mas não perdeu aquele humor característico e as linhas mais negras que definem a sua escrita e os mundos que constrói, continuando a consegui produzir no leitor alguns calafrios. Ainda assim, este volume é fraquinho quando comparado com os anteriores. Sempre achei que nesta saga Anne Bishop nos alerta muito para os perigos do aquecimento global, para o que pode acontecer se nos esquecermos de tomar conta daquela que é o nosso lar num sentido mais lato do termo. As preocupações continuam a estar lá bem como os alertas para os perigos da falta de aceitação das diferenças do outro, da descriminação em função de raça ou comportamento mas... faltou algo.

O mundo de Os Outros é um mundo com que nos conseguimos identificar automaticamente pois, na sua raiz, é o nosso mundo, aquele em que o leitor vive. As personagens são muito diversificadas mas também muito reais pois que pejadas de problemas, dúvidas, sonhos e convicções pelos quais devem lutar na medida das suas forças. Estas mesmas personagens vão evoluindo a olhos vistos desde o primeiro volume e sempre na medida em que os acontecimentos têm impacto nelas e nas alterações de comportamento que vão manifestando em relação àqueles que as rodeiam. Claro que a evolução tem que ser mais lenta ou estancar temporariamente nalgum ponto da narrativa, é impossível conseguir um ritmo de evolução constante, e foi isso que aconteceu neste livro. A evolução dos personagens parou, não surpreenderam, não reagiram de modo inesperado, mantiveram um comportamento constante e que fez com que a narrativa perdesse. Em certos momentos chegou a parecer-me que não sabiam como se comportar na sua própria história, pareciam perdidos. Além disso, neste volume aparecem novos personagens que se juntam ao já numeroso elenco e foi aqui que mais me pareceu que a autora perdeu o rumo do que estava a fazer.  Não houve um controlo efectivo dos personagens pré-existentes e a adição de novos elementos apenas serviu para aumentar a confusão o que fez com que o livro perdesse imenso. Há muita coisa a acontecer em vários cenários diferentes e com inúmeros personagens e quer-me parecer que a autora não conseguiu gerir com sucesso todo o volume de informação e acção que nos queria passar.

A dificuldade na leitura é gerada unicamente pelos personagens e pela falta de acção efectiva nos primeiros 3/4 do livro. As coisas vão acontecendo mas não há impacto, a inercia marca a acção dos intervenientes que vão sempre adiando uma reacção por várias ordens de razões. Vemos as coisas acontecer a um ritmo lento à medida que passamos as páginas mas ninguém se apercebe realmente do que está a acontecer, os personagens estão tão adormecidos que não juntam 2+2 e não há quem reaja como esperaríamos (parecia que a autora andava a encher chouriços sem saber muito bem que caminho seguir para atingir o resultado que queria). Quando finalmente há uma resposta às acções e provocações dos vilões ela é de facto arrasadora e a acção aumenta de forma muito considerável. Os acontecimentos finais são  uma visão verdadeiramente apocalíptica e é aqui que vemos, pela primeira vez neste volume, a Anne Bishop de sempre. Implacável, mortífera e destrutiva mas sempre justa, conseguindo deixar o leitor com mais perguntas que respostas como é seu apanágio.

O aumento da acção do outro lado do Oceano foi um dos pontos mais positivos bem como a definitiva adopção de uma "alcateia humana" por parte da comunidade de habitantes do Pátio de Lakeside. A primeira deixa antever viagens e novas interacções, a segunda faz-nos pensar no impacto que tal comunidade pode vir a ter no desenrolar do fim do mundo. Quanto à relação entre Meg e Simon... lamento mas não estou mesmo assim tão interessada em saber se vão finalmente formar um par amoroso. Não é esse o elemento que me faz adorar esta saga que prima sobretudo pela mensagem subjacente que nos é deixada.

Não me interpretem mal, gostei bastante deste penúltimo volume e estou mortinha pela edição do próximo mas, comparativamente, é de longe o mais fraco até à data.

5.5/10


sábado, 11 de março de 2017

O que ai vem...




A autora portuguesa Sandra Carvalho Anunciou recentemente no seu site oficial o lançamento do segundo volume das Cronicas do Vento e do Mar. O lançamento será já no dia 15 deste mês pelas mãos da Presença. A autora adiantou ainda que As Cronicas do vento e do Mar serão uma trilogia sendo que os leitores não terão que esperar muito pelo terceiro volume que será editado em Junho por altura da Feira do Livro de Lisboa. :) Digam lá se isto não são boas notícias?
Enquanto dia 15 não chega deixo-vos com a imagem de capa e a sinopse disponibilizadas pela autora.






quinta-feira, 9 de março de 2017

Gravar as Marcas

Autor: Veronica Roth
Título Original: Carve the Mark
Edição: Harper Collins
ISBN: 9788491391111


Numa galáxia dominada pela corrente, todos têm um dom.
Cyra é a irmã do tirano cruel que governa o povo de Shotet. O dom-corrente de Cyra confere-lhe dor e poder, que o irmão explora, usando-a para torturar os seus inimigos. Mas Cyra é muito mais do que uma arma nas mãos do irmão; é resistente, veloz e mais inteligente do que ele pensa.
Akos é filho de um agricultor e do oráculo de Thuvhe, a nação-planeta mais gelada. Protegido por um dom-corrente invulgar, Akos possui um espírito generoso e a lealdade que dedica à família é infinita. Após a captura de Akos e do irmão, por soldados Shotet inimigos, Akos tenta desesperadamente libertar o irmão, com vida, custe o que custar.
Então, Akos é empurrado para o mundo de Cyra, onde a inimizade entre ambas as nações e famílias aparenta ser incontornável. Ajudar-se-ão mutuamente a sobreviver ou optarão por se destruir um ao outro?



Conhecemos Veronica Roth com a trilogia "Divergente" que além de ter sido um enorme sucesso ao nível da leitura e venda de livros, se tornou um verdadeiro sucesso de bilheteiras aquando da sua adaptação ao grande ecrã. Mas desengane-se quem pensa que com este livro vai ter algum tipo de aproximação ou regresso ao mundo de "Divergente" pois este volume está longe de ser semelhante àquela trilogia. Na verdade e tendo apenas este primeiro volume como referência (a coisa pode mudar com os volumes seguintes), "Gravar as Marcas" está longe de me conquistar como a anterior obra da autora
A acção tem lugar num worldbuilding algo especial, um planeta distante povoado por duas civilizações inimigas, os Thuvhe e os Shotet, (com um ódio mútuo a condizer com a inimizade que os marca) e cujos habitantes são marcados por um dom que se revela geralmente no inicio da puberdade. Os dons (que como em tudo na vida podem ser encarados como fardos pelos portadores) são "concedidos" pela Corrente, literalmente uma corrente de energia cósmica que percorre a galáxia e é adorada quase como uma divindade. No início do livro os nossos personagens principais são apenas crianças e são-nos apresentados junto as respectivas famílias o que contribui de alguma forma para uma melhor compreensão das suas personalidades e acções tendo em conta que o ambiente que nos rodeia nos influencia sempre muito mais do que estamos prontos a admitir. Akos é um jovem oriundo de uma das mais importantes famílias Thuvhe. Vive com os pais e os irmãos num local calmo e onde impera a ordem e o amor. Cyra, por sua vez, é a filha mais nova da família regente Shotet e ainda que muito amada pela mãe, a sua vida é marcada pela violência e sadismo que reina no palácio. A vida corre com normalidade até ao dia em que, sem que haja obrigatoriamente uma relação de causa-efeito entre todos os acontecimentos, Cyra descobre o seu dom - a dor - Shotet ataca Thuvhe e rapta Akos e o irmão mais velho e o dom de Akos - bloqueio da Corrente -se revela. A partir daqui vão nascer inimizades, juras de vingança, actos de revolta e também estranhas amizades (desculpem mas não posso adiantar muito mais sem cair em spoilers, a sinopse já faz danos suficientes). 

Ainda no que diz respeito aos personagens, devo dizer que quem causou verdadeiro impacto foram os maus da fita e não os personagens principais. Não é que não goste da Cyra e do Akos mas a verdade é que os achei demasiado planos.  A acção decorre durante um longo período de tempo contudo a evolução esperada não se verifica. Akos continua lutador mas muito naif e Cyra resignada apesar de ser psicologicamente muito forte... Não há uma real evolução nas personalidades e esse facto deixou-me algo desinteressada. Já os mauzões... conseguiram por-me os nervos em franja em determinadas alturas. :) Há depois um conjunto de personagens secundários que, a meu ver, estão algo melhor construídos que os personagens principais. Ou seja, pendem mais para o bem ou mal mas são mais humanos na medida em que não são uns bonzinhos inocentes ou uns vilões inveterados - são como nós e consequentemente, menos previsíveis. Enfim, espero sinceramente que as personalidades de Akos e Cyra evoluam num próximo volume porque são eles o elo mais fraco, os personagens de quem mais se espera e que mais desiludem.

Mais uma vez, a ideia é boa, há aspectos muito interessantes neste worldbuilding e na caracterização das várias civilizações que habitam nesta galáxia o problema é o modo confuso como a informação nos chega. Confesso que demorei um bocado a entrar neste novo mundo e que o facto da maior fatia da narrativa ser composta por diálogos não ajudou muito, quando a autora se dedica à descrição o resultado é muito melhor (adorei a cena do festival azul, por exemplo, ou o "povo da água" e o seu planeta) do que quando a informação nos chega por diálogo. 

Devo dizer que não encontrei as referências racistas e anti-islâmicas que deixaram revoltados tantos leitores por esse mundo fora (nomeadamente nos EUA).  É verdade que os Shotet fazem anualmente uma peregrinação pela galáxia que pode ser comparada com a romagem dos muçulmanos a Meca mas... Não rumam os católicos a Lourdes ou até Fátima pelo 13 de Maio tal como o fazem tantos outras culturas em relação a outros locais de culto? Também os Shotet usam o termo clérigo. Pois, exacto, nós também!! A cor da pele deles é algo mais escura que a dos Thuvhe o que também é normal dado o facto de os Thuvhe viverem numa região mais fria e com menos sol. Que eu saiba os portugueses também costumam ser mais morenos que os islandeses, por exemplo. A sociedade Shotet tem costumes que podem ser considerados mais bárbaros, como aquele que dá o nome ao livro - gravar na pele as marcas das mortes infligidas. Ora, este elemento não me parece racista. Nas sociedades mais bélicas sempre houve a tradição de, de algum modo, assinalar as conquistas e isto acontece tanto em África como acontecia na sociedade Viking. Enfim, neste caso concreto, parece-me que o preconceito está mais nos olhos de quem lê do que na mão de quem escreveu mas nada melhor que lerem vocês mesmos para tirarem as vossas próprias conclusões. 

Resumindo e concluindo, é um livro que se lê muito bem e o worldbuilding é bastante interessante depois de começarmos, de facto, a compreende-lo. O ponto fraco são os personagens.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Acho que voltei!!!

Olá, olá

Não sei muito bem quantos de vocês ainda estarão ai por esse lado. Apraz-me pensar que algumas das pessoas que tão bem fiquei a conhecer (a nível virtual, claro) ainda possam por aqui passar de vez em quando na esperança de que eu, de algum modo, tenha decidido armar-me em fénix e ressuscitar das cinzas este meu cantinho.  Há alguns tempos que, confesso, ando com vontade de o fazer. Hoje decidi dar o primeiro passo nesse sentido e espero conseguir manter alguma regularidade. Sei que foram 2 anos de ausência mas... estava a precisar (sinceridade acima de tudo!!). O blog começou como uma coisa que eu fazia por prazer, para mim mesma e nos finalmentes já era uma obrigação, já começava a haver pressões que me eram alheias e o prazer... foi-se. Espero conseguir levar as coisas por um rumo diferente desta vez (vou mesmo esforçar-me. É para mim e para partilhar convosco algo que me dá muito gozo e nada, mas mesmo nada, mais que isso).

Em dois anos, devo dizer-vos, a minha vida mudou muito e houve momentos em que, mesmo que quisesse muito, nunca poderia ter mantido este espaço mas nunca, nunca deixei de ler (era o que faltava!!). Não tenho as estatísticas todas actualizadas mas posso dizer-vos, acaso estejam curiosos, que apesar dos números serem muito mais baixos, no ano de 2016 consegui ler 30 livros (alguns deles releituras) e que me comecei a aventurar nas leituras em francês (ah, ah... antes tinha medo do inglês, lembram-se?  Agora já devoro tudo. Inglês, francês, espanhol.... sempre a evoluir).
De todas as leituras de 2016 e cujas opiniões faltam, obviamente aqui  (posso tentar fazer algumas mais tarde mas, cumprindo a promessa lá de cima... Isto é para satisfação própria e não vou prometer coisas que não sei se cumprirei), posso mencionar os que mais me agradaram:

Maus - Foi uma das primeiras leituras do ano e adorei. É uma banda desenhada na qual o autor retrata a vida do pai sob o domínio Nazi e todas as consequências que isso acaba por acarretar no presente. Os judeus são retratados como ratinhos e os nazis como outros animais o que acaba por retirar um bocado a carga mais pesada que o relato poderia ter se feito de outro modo e torna a leitura mais fácil. 

Trono dos Crânios - Peter V. Brett voltou e eu não consegui resistir, obviamente. Neste volume notam-se cada vez mais as diferenças culturais entre dois povos em conflito aberto e os personagens crescem imenso conseguindo, no entanto, manter (e até criar) algum mistério quanto aos seus passados, aos seus futuros e sobretudo às tomadas de decisão. Longe de me esclarecer, fiquei com mais questões do que no início da leitura e (juro) quando terminei teria avançado logo para um novo volume se tal fosse possível.

Quinta Estação - Por fim, Mons Kellentoft dá-nos a conhecer o que aconteceu a Maria Duvall, personagem que nos acompanha desde o inicio desta saga (este é o 5º volume) num livro que, mais que revelador, é algo assustador. Numa Europa marcada pelo preconceito, racismo e corrupção em todas as áreas a polícia depara-se cada vez mais com crimes de gelar o sangue e com resoluções cada vez mais complicadas. Malin Fors, a detective e personagem principal, continua a revelar uma personalidade complexa e cheia de espinhos.

Saga Mistborn - Li a saga toda de seguida e sem conseguir parar para respirar entre volumes. Há muito que ouvia falar destes livros mas... nunca tinha acontecido. Shame on me, podia ter-me dedicado a eles mais cedo. Personagens complexas que nos enchem as medidas, um worldbuilding espectacular e uma intriga constante que não nos deixa desviar os olhos das páginas. Se ainda não leram não sabem o que estão a perder  (sei que estão um bocadinho carotes mas... aproveitem as promoções, vão à biblioteca, peçam emprestado... façam algo porque vale a pena).

Perguntem a Sarah Gross - passado e presente entrelaçam-se numa narrativa muito agradável e com algum mistério para nos revelar a vida de Sarah, uma sobrevivente do regime nazi. As descrições são muito vividas, dei por mim a ver o filme todo na minha cabeça enquanto os meus olhos absorviam o formato das letras, e coloridas e o final é bastante surpreendente. E, para melhorar as coisas, é de um autor português. :) Temos sempre  a mania que o nacional não presta, aqui está a prova do contrário. Leiam.

Malefico - aos restantes fãs de Donato Carrisi as minhas desculpas. O livro ainda não foi editado por cá mas quando, no verão, tive a oportunidade de o ler em francês não pude mesmo resistir. Não há muito a dizer, é o autor no seu melhor. Um mistério algo complexo com uma vertente de psicologia criminal muito forte, como é apanágio de Carrisi, e um Marcus completamente confuso e perdido que empresta outra aura à leitura. Adorei.

Deixo-vos por agora (vou fazer uma encomenda na wook.... :)) mas fico à espera dos vossos comentários e desafios. 
Até breve